Neste vídeo vem comigo conhecer as 5 melhores dicas de viagem para uma das cidades mais incríveis do mundo: Londres, no Reino Unido. Boa viagem 🌍
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quinta-feira, 1 de agosto de 2019
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Gales ali tão perto
Livro - Os Meus Descobrimentos - em breve à venda ! - acompanha este blog e visita o futuro site do livro osmeusdescobrimentos.com .
Apenas a duas horas de comboio de Londres, sita a capital de um dos estados que formam o Reino Unido. Na sua designação em português, é mais do que estado, sendo mesmo um país, de Gales. Desde a gare ferroviária de Paddington, localizada na posição estratégica centro-oeste do mapeamento londrino, a partir das cinco horas da manhã circulam velozes e sofisticadas composições de locomotivas e carruagens da marca Hitachi, ao serviço da Great Western Railway (GWR), empresa à qual foi adjudicada a exploração comercial da linha que liga Londres ao País de Gales. E sim o nome desta linha, tal como o da ilha britânica e quase tudo o resto, é também Great. Mas de onde advirá esta eterna e incessante necessidade de este povo se auto-declarar grandioso em tudo? Talvez porque a ilha, em si, é de pequenas dimensões, sendo então imperativo ludibriar os demais - apenas duas vezes e meia maior do que Portugal, e já incluindo aqui a Irlanda do Norte. Mas, por esta ordem de ideias e de afirmação duma pseudo-grandeza, Portugal é também grandioso, ainda para mais, depois de ganhar o campeonato europeu de futebol, o Euro 2016. E se esta necessidade de auto-engrandecimento ainda seria vista como algo crível antes da descoberta do novo mundo, depois desse marco na humanidade, já não faz qualquer sentido, pois o grande de outrora, em área pelo menos de um ponto de vista mais objetivo, já não o é agora, num tempo civilizacional em que países como o Brasil, Canadá, México ou E.U.A. "rebentam" com a pequena Grã-Bretanha, em área.
Pela linha GWR deslizava a composição, ora suave e com baixa turbulência na cabina permitindo assim desfrutar mais da paisagem, ora célere e já trepidante na carruagem de passageiros. Os bilhetes, aconselho a que os comprem antecipadamente, pois a lei do mercado tudo rege neste cantinho do mundo, não fosse o inventor do axioma da oferta e da procura, também ele britânico, o profeta capitalista Adam Smith, apologista da confiança numa mão invisível que rege a sociedade. Na internet, encontram-se bilhetes baratos, logo nos resultados cimeiros da lista do google, e ora, se os vir, agarre-os e "não deixe para amanhã o que puder fazer hoje", pois na estação de Paddington, os bilhetes serão entre 2 a 3 vezes mais caros, dependendo da hora de saída e da procura pelos bilhetes (lá vem de novo à terra o santo Adam Smith, que se manifesta em todos os aspetos económicos desta pequena grande ilha...).


Um velho amigo aguardava-me à chegada. E ao tempo que não via este jovem. Em adolescentes tivemos um grupo musical de hiphop, e a vida, as relações, as tropelias e trabalhos desta vida, levaram-no para outros quadrantes na Europa... até Cardiff, que parecia ser enfim um destino final para este comparsa. Munido do seu expertise local pude usufruir mais do meu tempo na capital daquele país. A passagem por Newport, cidade mais a Este, já fora de uma beleza inolvidável. Bem cedo, parti do bulício de Londres, eram oito da manhã, duma estação apinhada de profissionais aprumados, a procurarem um lugar vazio no comboio. A maioria ia sair em Reading, lugar de significativo pólo universitário (e onde é que não há boas universidades neste reino, afinal?) assim como também um importante centro de operações da National Grid (ou seja, Reading é uma espécie de Vila Franca de Xira britância, do ponto de vista logístico), e no apeadeiro seguinte encontra-se Swindon, algergue para um cluster de empresas tecnológicas que, mais distantes de Londres, beneficiam da tranquilidade bucólica que os stressados engenheiros tanto precisam para conseguirem gerir as suas equipas. Depois, e passando por uma estação chamada Bristol, mas na verdade situada ainda a dez quilómetros dela, chega-se a Newport, onde o sol, erguendo-se a a Este, se fazia refletir e dourar pelo rio Usk que se estendia por braços de mar até ao sal do Canal de Bristol no Atlântico Norte.
"Cardiff central" é a estação a escassos metros dos principais cruzamentos da cidade. De lá caminhei, tendo parado poucos minutos depois numa loja de venda de instrumentos musicais. Era inevitável! Para perscrutar os preços locais, pois a verdade é que a tecnologia musical é mais ubíqua por estes lados do globo. E em Cardiff os preços poderiam tender a ser mais em conta, do que o poço inflacionário da capital do reino.




No que refere à gastronomia, o que esperar da culinária nativa britânica? Ainda que a maior gentileza, agradabilidade e singeleza de Cardiff e do País de Gales, possam ser também manifestadas na comida local, optei por, e não resisti, a sentar-me à mesa num restaurante de inspiração portuguesa (sim, e de inspiração apenas, porque a comida já estava algo cafrealizada no ecossistema local), onde me serviram um bife na pedra acompanhado de uma cerveja super bock. O Nando's das galerias de restauração Brewery Quarter estava lotado, e como tal, servi-me deste cantinho pseudo-lusitano ali ao lado. De destacar os maus modos do gerente do espaço que ao saber que sou de Lisboa, se fechou na conversa, expressão facial e se enrolou em atrasos dos pedidos para a mesa. Ainda estas infantilidades norte-sul... e talvez ainda mais presentes, fora deste retângulo à beira-mar plantado.
Apenas a duas horas de comboio de Londres, sita a capital de um dos estados que formam o Reino Unido. Na sua designação em português, é mais do que estado, sendo mesmo um país, de Gales. Desde a gare ferroviária de Paddington, localizada na posição estratégica centro-oeste do mapeamento londrino, a partir das cinco horas da manhã circulam velozes e sofisticadas composições de locomotivas e carruagens da marca Hitachi, ao serviço da Great Western Railway (GWR), empresa à qual foi adjudicada a exploração comercial da linha que liga Londres ao País de Gales. E sim o nome desta linha, tal como o da ilha britânica e quase tudo o resto, é também Great. Mas de onde advirá esta eterna e incessante necessidade de este povo se auto-declarar grandioso em tudo? Talvez porque a ilha, em si, é de pequenas dimensões, sendo então imperativo ludibriar os demais - apenas duas vezes e meia maior do que Portugal, e já incluindo aqui a Irlanda do Norte. Mas, por esta ordem de ideias e de afirmação duma pseudo-grandeza, Portugal é também grandioso, ainda para mais, depois de ganhar o campeonato europeu de futebol, o Euro 2016. E se esta necessidade de auto-engrandecimento ainda seria vista como algo crível antes da descoberta do novo mundo, depois desse marco na humanidade, já não faz qualquer sentido, pois o grande de outrora, em área pelo menos de um ponto de vista mais objetivo, já não o é agora, num tempo civilizacional em que países como o Brasil, Canadá, México ou E.U.A. "rebentam" com a pequena Grã-Bretanha, em área.
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| Estação de Paddington - Londres. |
Pela linha GWR deslizava a composição, ora suave e com baixa turbulência na cabina permitindo assim desfrutar mais da paisagem, ora célere e já trepidante na carruagem de passageiros. Os bilhetes, aconselho a que os comprem antecipadamente, pois a lei do mercado tudo rege neste cantinho do mundo, não fosse o inventor do axioma da oferta e da procura, também ele britânico, o profeta capitalista Adam Smith, apologista da confiança numa mão invisível que rege a sociedade. Na internet, encontram-se bilhetes baratos, logo nos resultados cimeiros da lista do google, e ora, se os vir, agarre-os e "não deixe para amanhã o que puder fazer hoje", pois na estação de Paddington, os bilhetes serão entre 2 a 3 vezes mais caros, dependendo da hora de saída e da procura pelos bilhetes (lá vem de novo à terra o santo Adam Smith, que se manifesta em todos os aspetos económicos desta pequena grande ilha...).
Cardiff, Cardiff, no horizonte. A oeste, e quase em linha reta, de Londres, capital do Reino, ainda, Unido. Reading, Swindon, o entroncamento ferroviário para Bristol, Newport - a primeira cidade galesa que cruzei nesta viagem, e enfim, Cardiff Central.

Um velho amigo aguardava-me à chegada. E ao tempo que não via este jovem. Em adolescentes tivemos um grupo musical de hiphop, e a vida, as relações, as tropelias e trabalhos desta vida, levaram-no para outros quadrantes na Europa... até Cardiff, que parecia ser enfim um destino final para este comparsa. Munido do seu expertise local pude usufruir mais do meu tempo na capital daquele país. A passagem por Newport, cidade mais a Este, já fora de uma beleza inolvidável. Bem cedo, parti do bulício de Londres, eram oito da manhã, duma estação apinhada de profissionais aprumados, a procurarem um lugar vazio no comboio. A maioria ia sair em Reading, lugar de significativo pólo universitário (e onde é que não há boas universidades neste reino, afinal?) assim como também um importante centro de operações da National Grid (ou seja, Reading é uma espécie de Vila Franca de Xira britância, do ponto de vista logístico), e no apeadeiro seguinte encontra-se Swindon, algergue para um cluster de empresas tecnológicas que, mais distantes de Londres, beneficiam da tranquilidade bucólica que os stressados engenheiros tanto precisam para conseguirem gerir as suas equipas. Depois, e passando por uma estação chamada Bristol, mas na verdade situada ainda a dez quilómetros dela, chega-se a Newport, onde o sol, erguendo-se a a Este, se fazia refletir e dourar pelo rio Usk que se estendia por braços de mar até ao sal do Canal de Bristol no Atlântico Norte.
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| Newport - País de Gales. |
"Cardiff central" é a estação a escassos metros dos principais cruzamentos da cidade. De lá caminhei, tendo parado poucos minutos depois numa loja de venda de instrumentos musicais. Era inevitável! Para perscrutar os preços locais, pois a verdade é que a tecnologia musical é mais ubíqua por estes lados do globo. E em Cardiff os preços poderiam tender a ser mais em conta, do que o poço inflacionário da capital do reino.
Esta cidade, de dimensões médias, é também ela, nos tempos que correm, dominada no seu cerne por um centro comercial. O centro urbano foi requalificado dando origem a uma nova biblioteca e um manancial de galerias, que embora rodeadas por igrejas renascentistas assim como ladeando o impressionante castelo desta urbe, não deixam de ser um conjunto arquitetónico desenquadrado do todo que é a ambiência medieval e mística de Cardiff. Mas os tempos atuais são pautados pelo predomínio do comércio, capitalismo e conhecimento, que é o que econtramos na rua The Hayes. Acrescerá ainda o dissabor de que estas obras de reconstrução no centro da cidade, levadas a cabo entre 2007 e 2010, foram financiadas pela União Europeia... e agora, fundos aproveitados, brexit! Mas verdade seja dita, muito também deram para a UE, os contribuintes do Reino Unido, pois todos nós participamos nos fundos coletivos, através do IVA/VAT.
Ao caminhar no centro, na principal rua de comércio da cidade, a The Hayes, poderá o viajante reparar na estátua de John Batchelor, um empresário e político galês do século XIX, também presidente da câmara de Cardiff por um tempo, e a quem foi atribuído o epíteto de "amigo da liberdade", devido à sua campanha contra a escravatura.

Cardiff é uma cidade média, que no seu conjunto do centro e arrabaldes, abriga 350 mil habitantes. Duma ponta à outra, vão cerca de seis quilómetros, e se imaginarmos uma cidade como um círculo, pois esta não passará de metade, pois situa-se e cresceu em meia-lua, limitada pelo mar. Se tentar estabelecer um paralelo entre esta cidade britânica e uma portuguesa, apenas para que o leitor possa mais facilmente visualizar esta cidade pelo seu tamanho, apontaria para a área urbana de Setúbal, também assente na costa e limitada pelo mar, e o rio.
Seguindo caminho das recentes galerias até ao fim da rua The Hayes, a "rua direita" de comércio de Cardiff, avistamos então à esquerda o Castelo de Cardiff, e à direita a Câmara Municipal. A extensa, quadrangular e geometricamente perfeita forma do castelo impressiona e invoca o viajante até ela. Não obstante, o conjunto de edifícios da municipality e da universidade, além de bonitos incluem nele inscrições como "Poetry and Music". Ainda muito no centro, e mesmo ao lado do castelo que serviu de base à cimeira da OTAN/NATO em 2014 (e que não teve nem metade das manifestações que se viram em Lisboa em 2010 - ler o romance "Ativistas"), encontra-se o vasto, plano e apaziguador Bute Park, e que tem de facto motivos para se convidar alguém para lá ir... "bute lá?" :) Como é apanágio nos países anglófonos desenvolvidos, os bancos de jardim são o espaço preferencial para fazer uma dedicatória oficializada a alguém perecido, o que é visível pelas imensas pequenas placas colocadas a meio do encosto do banco, onde muitos locais prestam homenagem a entes queridos. Cerceando os vislumbres que se tem da cidade a partir da estação de comboios, marca também presença o estádio municipal pelos seus elevados, curvos e portentosos arcos metálicos, deste recinto desportivo que há bem pouco tempo, em 2015, recebeu alguns dos jogos do campeonato do mundo de rugby.
Pelas ruas da cidade, respirava-se a frescura marítima, enquanto se passeia por um misto de história e obras urbanas mais recentes. As placas de trânsito e com direções são bilingues, com espaço também para o galês, língua de matriz celta e praticamente indecifrável para o habitual falante e leitor de inglês.

No que refere à gastronomia, o que esperar da culinária nativa britânica? Ainda que a maior gentileza, agradabilidade e singeleza de Cardiff e do País de Gales, possam ser também manifestadas na comida local, optei por, e não resisti, a sentar-me à mesa num restaurante de inspiração portuguesa (sim, e de inspiração apenas, porque a comida já estava algo cafrealizada no ecossistema local), onde me serviram um bife na pedra acompanhado de uma cerveja super bock. O Nando's das galerias de restauração Brewery Quarter estava lotado, e como tal, servi-me deste cantinho pseudo-lusitano ali ao lado. De destacar os maus modos do gerente do espaço que ao saber que sou de Lisboa, se fechou na conversa, expressão facial e se enrolou em atrasos dos pedidos para a mesa. Ainda estas infantilidades norte-sul... e talvez ainda mais presentes, fora deste retângulo à beira-mar plantado.
No final do passeio, "merenda comida, companhia desfeita", e se não eu aprecio este adágio, desta vez foi mesmo assim, rumando a Londres de volta e num bilhete mais barato, pois a procura pelas três da tarde é menor... Oh Adam Smith que estais no céu.... :) é imperativo lembrar. Bem, e no fim do dia, de regresso a metrópole londrina, pensava para comigo que com Gales ali tão perto, esta Bretanha não é assim tão grande.
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terça-feira, 3 de maio de 2016
E-book do colectivo Portuguese Riders Crew
Este foi em equipa. Lancei o mote e imprimi o livro. Em edição de autor, portanto, e entretanto já esgotada. Mas está nas bibliotecas. E o livro está também aqui no blog em formato online. Boas leituras ;)
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015
De Portugal à Escócia em Carro
“O sonho comanda a vida”
Frase do poema Pedra Filosofal de António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Num dia decisivo para o futuro político de Portugal, 4 de outubro de 2015, fui votar cinco minutos depois de as urnas abrirem. Tanta questão fiz em exercer o meu direito pois não suportava o governo de coligação que lá estava. Armado em primeiro e melhor eleitor do bairro e arredores, pelas oito e quinze da manhã já votara e estava então no meu carro Skoda Fabia pela estrada fora até à Escócia. Pela frente, aguardavam-me dois mil e oitocentos quilómetros e quase quarenta horas seguidas de condução. Apesar da chuva que se atravessou no caminho e do nevoeiro que encontrei nos montes de Portugal e de Espanha, ia conduzindo com sucesso. A1, A23 e A25 com as suas complicadas portagens automáticas para quem não tem "via verde", Vilar Formoso, Salamanca, Burgos e a região basca, esta última onde a geografia tanto exaure o condutor, não obstante o esplendor natural da paisagem. De repente já estava no sul de França por onde se respirava tranquilidade e melhor clima metereológico e político. Às tantas detinha-me no facto de alguns dos sinais de trânsito estarem tapados com plástico escuro como se estivessem por estrear. Primeiro pensei ser uma brincadeira para contrariar os limites de velocidade mas depois ganhou consistência a tese de que seria devido a obras recentes na via. O sol punha-se quando cruzava esta terra e a restante França, atravessei-a com um firmamento estrelado por cima de mim. Auto-estradas grandes e bem definidas mas despidas de viaturas, tirando alguns camiões. Por vezes alguns carros colavam-se no meu encalço talvez para sermos vários na escuridão, não fosse o diabo tecê-las. Tudo isto me parecia tão animalesco e natural quanto os cardumes de peixes que se juntam uns aos outros no oceano para melhor sobreviverem, ou os pequenos que se encobrem nas caudas ou dorso dos tubarões e baleias. Os camiões e os carros que por vezes via junto a eles assemelhavam-se. Bem, somos animais e não há como escapar por vezes. Para me manter acordado pela madrugada fora liguei os ventiladores no máximo com frio e direcionados para a cara. A rádio estava com volume elevado e a passar notícias, o mais poli-tónica possível, e claro, ia parando nas estações de serviço ou "aire" em Francês para tomar café ou o mais semelhante que eles lá tivessem. A última localidade por onde passei antes da aurora despontar foi Rouen, um conjunto de sarilhos por não ter radial e a auto-estrada desembocar no centro da vila. De lá deriva a seguinte auto-estrada por onde tinha que seguir, até Callais. Numa estação de serviço parei para perguntar direções e de novo tomei café. Aí encaminharam-me de volta à estrada por onde já seguia, e estava certo portanto! Cerca de 300km depois, já imerso na Alta Normandia, os primeiros raios de luz banhavam o asfalto e podia deslindar na paisagem várias turbinas eólicas a girar. Alguns quilómetros adiante, logo depois de uma curva, avistei um grupo de cerca de vinte refugiados na berma da auto-estrada e a pedirem boleia, calculei eu. Talvez fossem também cruzar a estrada para ficarem mais perto de um ponto de acesso escondido ao túnel do comboio. Mas a surpresa, a velocidade da viatura e a impossibilidade de voltar para trás não me permitiram dar-lhes transporte. Isso poderia trazer-me problemas na fronteira também. Sim porque ela ainda existe em plena União Europeia e ainda para mais, quando ela já está claramente definida pela natureza. Uma ilha já tem fronteiras que cheguem!
Callais. Coquelles. Euro-túnel. A bilheteira. Uma nota preta para ter um título flexível pois viajava sem regresso marcado. A alfândega francesa. Tudo OK. Fila para a do Reino Unido e quando chegou a minha vez vieram as perguntas desagradáveis. Entre o funcionário que estava à janela de um posto parecido com o de uma portagem normal, e o vidro desse pequeno cubículo emergiu de um modo pernicioso e repentino um autêntico beef tingido de amarelo no seu cabelo e munido da tal arrogância que os carateriza, não sendo contudo essa a verdade geral, mas este funcionário alfandegário encaixava-se demasiado bem nesse estereótipo. What do you carry in the back? Who are you driving with? Is this your car? When did you buy it? How old are you? What are you going to do in the UK? Are you a musician? Já não podia mais com tanta impertinência, arrogância e desadequação conjunta. Esta besta interpôs-se no trabalho do seu colega para realizar isto? A menos que fosse o jogo da “besta” boa e da “besta” má, pois foi o que pareceu. Por trás desta viagem está um sonho de estudar música e áudio no Reino Unido, por lá existir uma boa oferta de cursos nesta área. Se bem que isso era mais verdade há uns quinze anos atrás. Hoje em dia, em muitos aspetos Portugal ou o ensino à distância têm muitas soluções nesta área. Contudo, um curso acessível ia começar nesse dia, segunda-feira ao fim do dia em Glasgow. A inscrição já tinha sido tratada há dias atrás e só faltava mesmo eu estar lá. Para aproveitar mais o tempo em que lá estava, levava comigo um conjunto de instrumentos para música eletrónica: máquinas de ritmos, sintetizadores, a guitarra e vários discos de vinyl. Com o inquérito para trás e uma raiva desmedida por aquele país estar fora por opção própria, e excessiva, do espaço Shengen, a estrada aguardava-me até onde quisesse ir. Pelas nove da manhã parei para trocar euros por libras e respirar fundo antes de me aventurar mais na condução à esquerda. A propósito, cuja dificuldade é um mito, alimentado pelas autoridades locais que insistem nisto para complicar e diferenciar o seu território e modo de viver dos demais povos europeus. Todos somos iguais contudo e esta não é mais do que uma bem visível face da política, orgulho e da arrogância que carateriza as terras de sua majestade. Há gente boa claro contudo, e tive a felicidade de conhecer pessoas impecáveis por lá. Agora as medidas políticas e o sentimento maioritário no povo são demasiado chauvinistas e incomodativos para com os visitantes.
Pé na estrada pela M20 fora, de Dover até aos subúrbios de Londres onde me iria cruzar com a M25, circular externa da metrópole europeia que hoje alberga quase dez milhões de pessoas e de onde derivam várias estradas para os restantes cantos do país. Ao início da entrada em solo britânico, as torrentes de camiões, a maioria de matrícula estrangeira, já impunham respeito, mas ao entrar na radial, a chusma de carros que se juntaram a mim começava a ser e tornou-se mesmo avassaladora. Não sei se por não ter dormido ou se por ser simplesmente aquela uma situação ridícula, estúpida e incompreensível mas fiquei preso no trânsito desde as onze da manhã de uma segunda-feira até às três da tarde, na radial da maior cidade europeia hoje em dia. E fazerem uma nova estrada? Ou aumentarem, ainda mais, o número de faixas. Assim desconstruia o mito de que todos os britânicos entram muito cedinho no emprego e fazem tudo bem e by the book. Errado! Àquela hora não era possível que fosse diferente. Enquanto o tempo passava e os meus olhos pestanejavam com cada vez mais peso e morosidade, ia também ouvindo o vasto conjunto de boas rádios que pululam o espetro radiofónico local. A Rinse e as suas sessões de grime, rap e dubstep, assim como outras semelhantes que descobri. E só este pequeno detalhe já fazia o meu dia e valer a pena estar ali a viver aquela experiência traumática do trânsito em Londres. Duas horas depois de estar literalmente bloqueado na estrada, optei por uma saída desconhecida, que levava a um centro comercial, ou antes uma área de serviço gigante. O mais interessante é que de lá não poda ir para mais qualquer outro lado pois não havia saída simplesmente! Aquele lugar era contudo nos subúrbios de Londres. Um atalho mais curto ou um caminho sem aquela avalanche de motores estava fora de questão. Só me restava parar, sair, esticar as pernas, e porque já era hora de almoço, comer algo. A comida já se apresentava de má qualidade e pouco mais me restava escolher do que o KFC. Fast-food, fast-food, fast-food. O que mais estava à mão de semear naquele país. Se bem que cada vez mais a cultura gastronómica se compõe de culinárias do mundo o que é divinal claro, mas isso sai sempre caro ao cliente, ainda para mais em Londres onde o custo de vida é inflacionado a cada dia que passa tamanho é o aumento da procura numa urbe onde a oferta de serviços se mantém. A única explicação que encontrei para aquele bloqueio seria o decorrer dos campeonatos de râguebi ali perto de onde me encontrava, percebi em conversa com uma senhora inglesa também ela bloqueada no parque de estacionamento e dentro do seu carro. Pelas 15H estava de novo a circular pela M25 e a entrar na M6, auto-estrada que me levou até ao destino. Não havia que enganar, ou “can't miss it” como dita a user-friendship daquelas bandas, e ainda bem que assim é! O crepúsculo chegou para encobrir a paisagem quando estava a vadear Manchester. Quando cheguei à Escócia já era noite cerrada, e a Glasgow era já onze. Bolas, e a primeira aula já tinha acabado. Fiz o melhor que pude, e podia culpar os ingleses por isso, que foi algo que os escoceses adoraram ouvir!
O curso de música, um sonho, o meu carro, um hotel perto da escola, o frio a chegar, eu instalado naquele quarto que tinha criteriosamente escolhido por telefone antes de ir, voltado a sul com luz e espaçoso, o staff simpático, a vibe musical de Glasgow, a sua familiaridade, e o tamanho razoável para nela habitar e comutar. O metro circular duma cidade algo que não vira antes, matar as saudades da gastronomia portuguesa na cadeia de restaurantes Nando's, o distanciamento tipicamente nórdico dos locais, o bairro onde fiquei, Ibrox, por alguns locais reputado como um subúrbio algo estranho, pois era habitado por muito imigrantes. O hotel que albergava refugiados calculo eu que estivessem a ser integrados na sociedade pelo governo local. O estádio dos Rangers que estava a duzentos metros do hotel e que impunha respeito assim como as suas claques que em dia de jogo espalhavam autocolantes, queimavam caixotes do lixo e obrigavam uma parte do comércio a fechar mais cedo. E o carro cansado da viagem mas agora bem resguardado com um lugar no parque privativo do hotel. Todas estas foram impressões enquanto lá estive. As cinco semanas da minha estadia passaram depressa. Por vezes atingia-me a desrealização do porquê de tudo aquilo. A música, a viagem, o sonho. E ia funcionando, aos poucos. Eu ia explorando as caixas de ritmos que levava comigo e criando batidas, inspirado nos mestres brasileiros, e carregava as canções na internet para partilhar, apenas porque sim. Era o meu sonho. www.soundcloud.com/joaocarlos1
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