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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A Cidade que Expulsa os Seus Próprios Filhos - Artigo de Opinião

Artigo sobre a crise da habitação em Lisboa, publicado na revista Visão.



Como Lisboa se tornou no pior caso de habitação da Europa — e quem está a lucrar com isso


Lisboa tem hoje o rácio renda-salário mais elevado de toda a Europa. Um T1 no centro de Lisboa exige 116% do salário médio líquido — mais do que qualquer outra cidade europeia analisada, incluindo Istambul (102%), Londres (75%), Madrid e Barcelona (74%), Milão (72%) e Paris (45%).



Não é exagero retórico. É aritmética. Em Lisboa, um salário inteiro não chega para pagar a renda de um T1. Sobra menos do que zero.


O mesmo padrão repete-se na compra de casa: o rácio preço-rendimento de Portugal no índice da OCDE atinge 158, muito acima da média da organização (116) e da generalidade dos países europeus — Espanha está em 117, França em 94, Alemanha em 107.





O fosso que ninguém quer admitir


Na última década, os preços da habitação em Portugal subiram quase 240%. Os salários médios subiram cerca de 59%. Os preços cresceram a um ritmo quatro vezes superior aos rendimentos.


E o pior: nem isto é recente. Entre 2000 e 2024, a produtividade real por trabalhador em Portugal cresceu de forma consistente — mas os salários reais ficaram sistematicamente atrás, com um fosso que nunca fechou em duas décadas. Produzimos mais. Ganhamos relativamente menos. E pagamos cada vez mais por um tecto.



O motor por trás da subida: turismo sem fim à vista


Um novo estudo da New Economics Foundation, em parceria com a Transport & Environment, projecta que o crescimento previsto do tráfego aéreo entre 2026 e 2031 vai continuar a empurrar as rendas para cima em toda a Europa — mas Portugal está entre os países mais penalizados. A modelação aponta Portugal com subidas anuais de renda próximas dos 200 euros, num patamar comparável apenas à Irlanda, Espanha e Grécia, os quatro países mais afectados de todo o continente.


O estudo confirma ainda algo que os trabalhadores portugueses já sabem na pele: o turismo contribuiu ligeiramente para o emprego, mas não fez subir os salários. A maior parte dos benefícios económicos está a ser absorvida por grandes empresas, não pelas pessoas que vivem e trabalham nos destinos mais procurados.


E aqui chegamos ao verdadeiro problema estrutural: Portugal tornou-se num dos países europeus mais dependentes do turismo como fatia do PIB, muito acima da média do continente. É uma dependência perigosa — e, mais do que isso, é preguiça de estadista.


Portugal tem uma posição geoestratégica privilegiada — porta atlântica da Europa, ponte histórica e linguística com África, América Latina e a lusofonia global, fuso horário favorável para negociar simultaneamente com os dois lados do Atlântico. É um país com condições para construir uma economia diversificada, com indústria, tecnologia, logística internacional e serviços de alto valor. Em vez disso, sucessivos governos escolheram o caminho mais fácil: vender o país a metro quadrado, apostar tudo na machine do turismo e do imobiliário, e transformar Portugal num parque temático para quem visita — à custa de quem cá vive.


Não é fatalidade geográfica. É opção política. E foi feita, ciclo após ciclo, porque dá resultados imediatos nas contas públicas e nas fotografias de campanha, sem exigir nenhuma visão estratégica de longo prazo. O preço dessa preguiça está agora estampado nas rendas de quem trabalha em Lisboa e não consegue pagar onde mora.



Quem está a comprar Portugal


Enquanto os salários estagnam, o número de super-ricos em Portugal dispara. Portugal tinha 1.462 indivíduos com património líquido superior a 25 milhões de euros em 2021. Em 2026, esse número deverá atingir 2.187 — um crescimento de quase 50% em cinco anos, segundo a Knight Frank.


Uma parte significativa destes ultra-ricos são estrangeiros atraídos por incentivos fiscais como o regime de Residente Não Habitual e os vistos gold. Mesmo com restrições recentes a estes programas, os analistas da Knight Frank estimam que as alterações vão abrandar a procura internacional, mas não a eliminar.


Não é coincidência. É um modelo de negócio nacional, executado com sucesso. Só que o produto vendido é o tecto sobre a cabeça de quem aqui nasceu.



A fuga organizada dos mais qualificados


Enquanto Portugal atrai capital estrangeiro, perde os seus melhores. Cerca de 30% da população portuguesa que emigra tem qualificações superiores. Em 2024, a Suíça consolidou-se como primeiro destino com 12.388 entradas, seguida de perto por Espanha com 11.332 — sendo que Espanha e Suíça têm alternado a liderança nos últimos anos.


A Espanha em particular tornou-se um destino cada vez mais competitivo para jovens portugueses qualificados. Entre 2015 e 2025, a percentagem de jovens espanhóis entre os 15 e 24 anos com contrato temporário caiu de 70,4% para 44,4% — uma redução de 26 pontos percentuais, fruto de reformas laborais que mostram ser compatíveis com criação de emprego e melhor desempenho económico. Em Portugal, a redução foi menor — 18 pontos percentuais no mesmo período.


O resultado é visível nos números: o salário médio mensal ajustado a tempo completo em Portugal era, em 2024, de 2.068,2 euros — menos 1.249 euros do que a média da União Europeia, fixada em 3.317,3 euros. Portugal apresenta também uma produtividade por trabalhador de apenas 48 mil euros, claramente abaixo da média europeia de 74 mil euros.


Os jovens portugueses não estão a sair por capricho. Estão a fazer contas — e Espanha, com reformas laborais reais e salários mais competitivos, está a ganhar.



O custo de exportar quem formámos


O custo para o Estado é mensurável: Portugal perde cerca de 4,7 mil milhões de euros por ano em receitas de segurança social e cerca de 2,3 mil milhões em IRS. O custo de substituição dos 194.000 portugueses com ensino superior que emigraram na última década ascende a 18,7 mil milhões de euros.


Um estudo apresentado na Assembleia da República em Março de 2025 vai mais longe: o regresso de quase 200 mil licenciados que emigraram entre 2012 e 2021 permitiria aumentar a taxa de crescimento do PIB em mais de 0,6 pontos percentuais e antecipar em 10 a 14 anos a convergência com a área do euro e a UE. Em cenários de maior intenção de emigração entre estudantes, as perdas projectadas chegam a 45 mil milhões de euros em receita de IRS, 7 mil milhões em impostos indirectos, e 61 mil milhões em contribuições para a segurança social.


Pagamos a educação. Exportamos o retorno. E ainda chamamos a isto "abertura ao mundo".



Quem vai ficar?


Aqui está o corolário brutal que ninguém quer enunciar em voz alta.


Quem vai ficar num país que expulsa os seus próprios filhos — os mais qualificados de sempre, formados com investimento público, que partem porque o país não lhes oferece nem casa nem salário compatível com o que produzem?


Quem vai ficar num país que não retém os imigrantes que precisa, porque a procura desenfreada por habitação, alimentada por capital internacional, empobrece toda a gente — nacionais e imigrantes por igual? 28,9% dos estrangeiros residentes em Portugal estão em risco de pobreza ou exclusão social, quase 10 pontos percentuais acima da população portuguesa.


Quem vai ficar num país onde ninguém tem filhos, com natalidade em colapso e sem reposição geracional, e que só consegue atrair reformados estrangeiros e turistas de passagem?


A sociedade portuguesa está, na prática, num processo lento de suicídio colectivo. Não por catástrofe súbita. Por mil pequenas decisões políticas, repetidas ciclo após ciclo, que sistematicamente recompensam quem chega com capital e penalizam quem cá nasce, trabalha e tenta construir vida.


No fim deste processo, só vão sobrar os ultra-ricos e os seus serventes. Uma economia de serviço pessoal, hospitalidade e manutenção de propriedades de luxo para quem pode pagar — e uma população local cada vez mais reduzida a essa função. É a escravatura dos tempos modernos, sem correntes, mas com o mesmo desequilíbrio fundamental de poder: quem tem o capital decide; quem precisa de sobreviver serve.



Quem ganha com a expulsão dos lisboetas


Quando o preço de uma casa se desliga do salário de quem a deveria poder comprar, alguém está a lucrar com esse desligamento. Não são os professores, enfermeiros ou polícias que deixam de conseguir viver na cidade onde trabalham, fazendo-a perder competitividade económica, segundo o Conselho Consultivo para a Habitação da Comissão Europeia.


São os fundos de investimento imobiliário. São os promotores que constroem luxo para investidores internacionais em vez de habitação acessível. E é, de forma directa e indirecta, o aparelho político — central e municipal — que viabiliza este modelo através de licenciamentos, isenções fiscais, e décadas de inacção regulatória conveniente.


A UNODC, agência das Nações Unidas para a droga e o crime, resume o mecanismo de forma cirúrgica numa das suas campanhas recentes: a corrupção rouba receita pública, prendendo os países num ciclo de sobrevivência de curto prazo em vez de crescimento sustentável. Não é preciso provar suborno directo para reconhecer o padrão. Quando o interesse público sistematicamente perde para o interesse de quem financia campanhas, contrata consultores bem relacionados, e tem acesso privilegiado a decisores municipais e nacionais, o resultado funcional é indistinguível de captura institucional — seja ela formalmente ilegal ou apenas estruturalmente cúmplice.


O Estado que devia regular este mercado em nome dos cidadãos tornou-se facilitador de um modelo que enriquece quem já tem capital e expulsa quem trabalha. Isto não é falha de mercado. É falha de governação.



O que está em jogo


A habitação é um direito constitucional em Portugal. Não é uma classe de activo para carteiras de investimento internacional. Quando esse direito é sistematicamente sacrificado em nome de "atractividade económica", o que resta não é uma cidade próspera — é uma cidade esvaziada dos seus próprios habitantes, mantida artificialmente viva por quem a visita e parte, enquanto quem a construiu, sustenta e ama é empurrado para fora.


Lisboa não está apenas cara. Está a perder os lisboetas. E o país, no seu conjunto, está a perder os portugueses — trocados por quem traz capital sem trazer raízes.


Enquanto isso acontecer sem consequências políticas reais, vai continuar. E no fim, talvez não sobre ninguém para perguntar porquê.


Neste cenário trágico de governação habitacional, resta uma solução prática que ninguém recomenda em fóruns de política pública: comprar um veleiro. Pelo menos a água e o vento, ao contrário do solo lisboeta, ainda não têm dono — e a vista é gratuita.


--

João Lopes Aguiar é engenheiro electrotécnico, escritor e navegador em circumnavegação a bordo do veleiro Winderlust II.





segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Capitão Queirós - INVENTOR DA AUSTRÁLIA - Ep. 48


Pedro Fernandes de Queirós, navegador português, em 1606 foi o inventor da palavra Austrália e o primeiro europeu a chegar a Vanuatu, no Pacífico Sul. Dois feitos que se cruzam por acaso. Vanuatu, país independente desde 1980, antes chamado Novas Hébridas, foi visitado primeiramente pelo navegador português Pedro Fernandes de Queiroz em 1606, que ao chegar à ilha de Espírito Santo acreditou estar na Austrália, assim inventando o nome do maior país da Oceânia. Foi também ele o primeiro europeu a contactar com as tribos melanésias locais de #Vanuatu. Ao chegar à ilha vindo de oeste e sendo já esperada uma grande terra no hemisfério austral, antes descoberta pelo lado este e norte por expedições portuguesas, ele nomeou a ilha como Austrialia do Espírito Santo. Na época a dinastia filipina em Portugal e Espanha era dos Habsburgo, da Áustria, assim também homenageando a coroa vigente. Hoje em dia existem duas estátuas dele em Sydney e Camberra, e a maior ilha de Vanuatu é chamada Espiritu Santo, em sua homenagem. Vem conhecer este herói da história marítima mundial, estudado nas escolas de Vanuatu, e homenageado nas ruas da Austrália, mas tão pouco conhecido em Portugal.

João || Veleiro Winderlust ⚓️ || www.sailing-winderlust.com

quinta-feira, 17 de abril de 2025

5 DICAS para Iniciar na Vela || MANUTENÇÃO em Época de Ciclones - Ep. 28


Com frequencia recebo perguntas de como iniciar na vela, onde aprender, e o que fazer antes de comprar um veleiro. Nos primeiros minutos deste video, apresento 5 dicas para arrancares com a tua vida no mar. E de repente, passaram 4 meses nas Fiji, onde amarrei o barco seguro para os ciclones que passaram ao lado das ilhas. Diz um provérbio chines que enquanto esperares, mantém-te ocupado. Pesquei, recolhi as velas, revi os estais, remodelei o dinghy, entre tantas outras coisas.
João || Veleiro Winderlust ⚓️ || www.sailing-winderlust.com

terça-feira, 21 de setembro de 2021

ENTREVISTAS para o SAPO VIAGENS e o BALAI.CV

Entrevista para o Sapo Viagens sobre a viagem de veleiro de Barcelona a Cabo Verde e os insights que tive no mar, assim como a importância do turismo consciente, a sustentabilidade do planeta, e, o legado esclavagista dos descobrimentos portugueses ainda visível no mundo. Podes ler aqui: https://viagens.sapo.pt/viajar/viajar-portugal/artigos/joao-navegou-de-espanha-a-cabo-verde-em-plena-pandemia-para-onde-ira-a-seguir

⚓ Entrevista para o Balai.cv portal de notícias de Cabo Verde. Podes ler aqui: https://www.balai.cv/balai-style/velejador-portugues-que-chegou-a-cabo-verde-ao-sabor-do-vento-prepara-se-para-atravessar-o-atlantico/




terça-feira, 16 de julho de 2019

5 DICAS DE VIAGEM - SÃO MIGUEL, Açores, Portugal

Novo vídeo com 5 Dicas de Viagem, esta semana sobre a incrível ilha de São Miguel nos Açores. Boa viagem 🌍

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Documentário - Os Meus Descobrimentos - Volta ao Mundo em Couchsurfing - Pt. I

O documentário já está disponível em quatro partes no leitor abaixo,
tal como no canal de youtube youtube.com/heinzaguiar
e no site osmeusdescobrimentos.com
Na primeira parte, há filmagens de Marrocos, Mauritânia, Senegal, África do Sul, Moçambique e Lesoto.
Agradeço que partilhem e façam like no vídeo.
Espero que gostem !
#osmeusdescobrimentos
#estamosjuntos





terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Apresentações do Livro




Hey, 👉 Quem puder venha até estas sessões sobre a viagem e o livro. 🌐 Em fevereiro será pelo Norte e em março por Lisboa. 
+ info sobre os eventos:👉 Porto - www.bit.ly/palestraporto🌐 Murça - www.bit.ly/palestramurça👉 Guimarães - www.bit.ly/palestraguimaraes🌐 Aveiro - www.bit.ly/palestraemaveiro👉 FNACs Lisboa - em breve em www.culturafnac.pt
#osmeusdescobrimentos #naestrada



segunda-feira, 22 de maio de 2017

No Meio do Mar Plantados


Ainda hoje me espanto com a ideia de que a mil e quinhentos quilómetros a oeste da costa continental portuguesa, existe um outro Portugal. Uma outra dimensão do país que é, inesperadamente, uma extensão ou realidade paralela, nunca deixando de ser parte do todo. Os Açores são um Portugal tão português quanto o restante, mas que de um modo tão surpreendente quanto interessante, aportam uma diversidade, dimensão e profundidade únicas ao país, afinal não somente, à beira-mar plantado.

Aterrar no aeroporto da ilha de São Miguel, João Paulo II, é um momento belo e apreciável, pela paisagem viva e verdejante envolta, que ornamenta os vários promontórios que avistamos, assim como pela cidade de Ponta Delgada aposta, que nos enche a vista quando lá aterramos ou levantamos voo. Chegados, dá-se outro valor ao aeroporto Humberto Delgado, mais sofisticado, complexo e portentoso, como não poderia o deixar de ser também, pela sua localização na capital. Em oposição, nestas ilhas atlânticas não passam tantos voos, mas não deixa de haver uma estrutura aeroportuária funcional, agradável e aconchegante, que nos acolhe no início da viagem.

Quando lá voei, ia abrir, a potenciais compradores, a porta de uma casa que estava à venda. E isto no lado oposto da ilha, a Ponta Delgada, o que me permitiu então calcorrear uma parte do seu território. Fui até Santo António, a Calhetas, onde pelo caminho, em Capelas, pude vislumbrar uma formação rochosa na recortada encosta da ilha, e que ao longe se confundia com o perfil de um elefante a distender a tromba à água oceânica. Depois seguiram-se os Fenais da Luz, assim como a freguesia de Rabo de Peixe, onde sobressaíam a pobreza, o consumo de droga e, em última análise, a degradação da vida, sendo estatisticamente aquela a freguesia mais pobre do país. De seguida, pude conhecer as furnas, junto à Lagoa do Fogo. E se a intensidade da clorofila por lá é distinta, e se esta cor é símbolo de esperança, então por lá mais haverá. Por várias vezes, nesta ilha, dava por mim a recordar-me da Irlanda, e do intenso e carregado manto de relva que a cobria. Os Açores lembram-nos disto.

Outro mistério que pude desvendar nesta ilha, é o sotaque micaelense. De onde virá este fechamento arredondado das vogais, impelido por um contorcionismo vocal das sílabas? Vem da França, pasme-se! Pois, no início da colonização desta ilha vieram vários franceses para a povoar, em conjunto com os portugueses. Outras ilhas, por terem sido colonizadas de outras formas, por exemplo a do Faial, que foi por portugueses e holandeses, deram origem a sotaques distintos neste arquipélago (e tudo isto, em última análise, comprova as teorias de Darwin...).














No regresso a Lisboa, passaria pela Terceira mas devido ao mau tempo no Atlântico (indicava a metereologia), fomos obrigados a pernoitar pelas ilhas. Numa oportunidade única e imprevisível, cruzei-me no hotel pago pela companhia aérea, com o companheiro de causas sociais, o Tito de Morais. Mesmo tão distantes do continente, haveríamos de nos encontrar, a caminho do pequeno-almoço, nos preparos finais para ele ir para a escola onde iria prelecionar, e eu para ir até às Lajes, a caminho de casa. Nesta estadia inesperada, foi também possível calcorrear a Praia da Vitória, que até então apenas conhecia da avenida do Saldanha, onde anos a fio, adorava ir ver os filmes de bollywood e os ciclos da Zero em Comportamento, no já encerrado Cine-estúdio 222. Nesta vila, o sotaque era já padronizado, que tamanha alteridade para o que ouvira horas antes em S. Miguel, me deixou tão curioso e atento, quanto amalgamado. Nesta terra insular, é comum ouvir os locais vangloriarem-se de ser aquele o lugar, durante os últimos cinco séculos, mais português foi, pois aquando da ocupação filipina no continente, o então rei, ainda que por pouco tempo, D. António (Prior do Crato) instalou-se na Terceira, tendo mesmo lá sido instalada a Casa da Moeda. O nome Praia da Vitória, é, também ele, devido a um outro singular episódio da nossa história coletiva, no qual, os liberais liderados por D. Pedro, fizeram sucumbir as tropas absolutistas, do seu irmão D. Miguel. A batalha ocorreu lá, e saindo vitoriosos os primeiros, que depois reinaram o país, ficou assim o nome da localidade.














Os Açores são ilhas diversas, inesperadas e que nos sublimam os sentidos. Compostos por paisagens vivas, feitos de história, e de um sentimento díspar pela terra e pelo mar, são um novo país dentro de Portugal, e agora tanto ao mundo descerrados, que devem ser conhecidos, porque estão ali para nós, no meio do mar, plantados.


domingo, 14 de maio de 2017

Acreditar ou partir

Engraçado como a história se repete. Ou talvez não... Cem anos depois do milagre de Fátima, e num só dia, o Papa esteve em Portugal, o Sport Lisboa e Benfica sagrou-se tetracampeão nacional de futebol, e, surpresos, admitamo-lo todos (ainda que por uma sistémica descrença nacional), ganhámos a Eurovisão. Para mim, contudo, as duas vitórias não foram surpresa... talvez devesse começar a apostar online. 

Toda esta conjugação de eventos poderia ser apenas uma coincidência, ou algo de divino. Mas não, cá para mim, não foi uma coisa nem outra, pois a energia anímica vertida sobre a sociedade portuguesa, derivada do primeiro dos três factos, potenciou os outros dois. E interpreto que o Benfica alcançar o "tetra", até seria expectável, mas o Salvador (e lá está a simbologia messiânica do nome, para mais a 13 de maio de 2017) vencer a Eurovisão, caros crentes... desabafem e assumam que isto pode ser considerado milagroso. Talvez seja a reedição dum hipotético milagre que sucede de cem em anos, neste dia, deste mês. E é também curioso que em 1917 as aparições foram largamente adoradas (e instrumentalizadas) na Rússia, em ano de revolução bolchevique, e que à época englobaria Kyiv, (cujo território estaria contudo em disputa) e agora, sucede a vitória do concurso da Eurovisão numa simetria inversa. 

Portugal é hoje em dia, ainda que de um modo escamoteado, um dos países mais católicos e religiosos, do mundo. Pelo que o vigor de um estado laico por cá é questionável. Talvez se verifique um pouco, porque as leis assim o ditam, ou até porque o primeiro-ministro descende de hindus, e esse respeito por esta diversidade transmitir-se-á, em parte, na pesada estrutura vertical da sociedade portuguesa. Lembremo-nos também que Portugal tem a cruz de Cristo estampada seis vezes na sua bandeira... No fundo, a explicação para esta pseudo-laicidade, reside em, por um lado, o "estado laico" ser um princípio republicano francês e em, uma vez mais, termos copiado um conceito legal sem perceber a sua validade por cá, e, por outro lado, em Portugal a religião ser tão estruturante à população, que então, restar-nos-á aceitar esta extrema e inevitável religiosidade, ou partir para outro lugar. Pois não acredito em milagres.


















Fotografia: Sintra.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Galapinhos é grande!

A praia de Galapinhos foi este ano eleita a melhor da Europa. Desde os tempos em que lá ia mergulhar com os meus tios e primos de Setúbal, nas férias de verão, que acho isto... e este recanto ainda está no meu top mundial de praias. Galapinhos é grande!



terça-feira, 2 de maio de 2017

Estátuas da Liberdade

Quando regressava a casa vindo das celebrações do primeiro de maio, subi a artéria central do centro de Lisboa, a Avenida da Liberdade. Qualquer alfacinha já lá passou imensas vezes mas acho que quando regressamos e revemos os lugares, há sempre coisas novas que observamos, tal como quando vemos o mesmo filme duas vezes, à segunda há novos pormenores de que nos apercebemos. E assim vi-a de um outro modo.

Ao subir a avenida, um conjunto de estátuas cruzou-se no meu caminho. A primeira de todas, do histórico libertador da América do Sul e Central, Simón Bolívar, a quem se presta uma eterna admiração na República Bolivariana, e lá está o nome dele na etimologia, da Venezuela. Ou na Bolívia, a quem se dedicou todo o nome do país. As árvores da avenida abriram-se num dos passeios laterais, perante o elevado e imponente vulto em bronze verde, deste militar. Ao ler as inscrições na base da estátua, com a lista dos países por ele libertados - Venezuela, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Panamá - é-me despertada uma imagem de gritos de guerra, revolução, sofrimentos e alegrias populares. Como se todas as lutas e batalhas pela independência, feitas de vitórias e derrotas, do vermelho sangue e da água salgada do choro e suor dos militares, ali estivessem plantadas em respeito àquela pessoa. Não deixei de reparar que foi em 1978, ainda no rescaldo da nossa mais recente revolução, que se homenageou aquele prolífico libertador popular.

Mais acima, um busto, também de bronze, no topo de uma coluna branca, que nos dá pela altura do tronco. O vulto é de Chopin, o génio compositor musical, de naturalidade polaca, e a quem se prestou, há pouco tempo atrás, uma tímida homenagem, ali no outrora "Passeio Público". Deste ponto, ao olhar para o outro lado das faixas de rodagem, vislumbrei um imponente trabalho em pedra granítica e bronze, no qual lia, à distância, em letras grandes inscritas na pedra, "Primeira Guerra Mundial", erigido em homenagem às vítimas, guerreiros e sobreviventes portugueses deste nefasto episódio da história contemporânea. Dela emanava dor e sofrimento mas também vitória, nacionalismo e união dos soldados. Enquanto a via, no plano por detrás, harpejava incessante a bandeira na janela do consulado de Espanha, à porta do qual uma patrulha de polícias armados com metralhadoras até aos dentes, por lá se entretinham, para sempre, à procura de um qualquer sinal terrorista, e com que critérios, sabia-se lá. O máximo que viram, terá sido talvez, embora na residência do embaixador, aquando da memorável manifestação de 15 de outubro de 2012. De resto, nada... e a um custo elevado para o erário público.

O pendente desta avenida que se expande desde os Restauradores (lugar de outra importante estátua aos nossos heróis de 1640) até à "Rotunda", intimida mais do que cansa, e por isso depressa subi outro trecho até ao cruzamento com a Alexandre Herculano, onde são homenageados o político Oliveira Martins, o nosso Almeida Garrett, e outro grande escritor, também político liberal e deputado patriota, que dá nome a esta transversal da "Avenida".



Já no topo da estrada e fim da "Liberdade", aguardava-me não uma rotunda, mas antes uma "turbo-rotunda" (versão melhorada da primeira com duas rotundas separadas e concêntricas), inaugurada há poucos anos atrás, mas com um assinalável erro de planeamento na drenagem de águas, identificado no dia da inauguração, por um cidadão anónimo. A estátua, feita de um exagero de pedra e metal, foi feita em honra de alguém que, tendo feito coisas boas por cá, perseguiu e matou muita gente. Sempre que se apura o campeão nacional de futebol, o alvoroço ao redor deste lugar é exagerado, e só possível num país que respeita tanto ou mais este desporto do que a própria religião. Qual a diferença entre os dois? Perguntava-me e refletia enquanto caminhava.

Depois de calcorrear este ex-libris, pelo menos rodoviário, da cidade, não deixava de me orgulhar de que, se na outra costa do Atlântico Norte, há uma estátua da Liberdade, por cá nós temos todas estas as estátuas na "Liberdade".

terça-feira, 3 de maio de 2016

E-book do colectivo Portuguese Riders Crew

Este foi em equipa. Lancei o mote e imprimi o livro. Em edição de autor, portanto, e entretanto já esgotada. Mas está nas bibliotecas. E o livro está também aqui no blog em formato online. Boas leituras ;)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

RÁDIO - NOVIDADES - Número 1

RÁDIO - NOVIDADES - João Aguiar - Música+Sociedade - Número 1 
- ROOTS MANUVA, LIBERDADES CIVIS NA UE, TALIB KWELI








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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Despertar no Bairro

Reportagem

Famoso pela vida boémia e algumas casas de fado, mas também pelos relatos de violência, excessos noturnos ou a prostituição de outrora, o Bairro Alto não costuma chegar até nós pelos melhores motivos. Mas nessas mesmas ruas habita uma comunidade de várias idades, origens e profissões que todos os dias se levanta e se deita, num dos locais onde a noite lisboeta acontece. Num passeio matinal, fui conhecer algumas pessoas deste bairro.

"Para mim, o mais difícil era adormecer. Acordar sempre foi um sossego." 
Sr. Agostinho da Padaria “Os Bolos”

Subindo a Rua do Norte às 7H30 da manhã, o comércio está ainda fechado. Cruzo-me com o Sr. Humberto do talho, que distribui peças de carne pelas casas do bairro. O camião do lixo termina a recolha. Bárbara, caminhando misteriosa e de poucas palavras, chega a casa depois de uma noite de trabalho, enquanto escreve mensagens no telemóvel. Bato à porta d'Os Bolos, nome pelo qual já conhecia esta padaria no topo da Rua da Rosa. Está aberta todo o dia e toda a noite. O Sr. Agostinho, ribatejano, trabalhador de camisa de cavas branca e braços tatuados conta-nos que faz pão de dia e de noite, há 33 anos. "Hoje rendi de madrugada e só saio daqui ao final da tarde." Diz orgulhoso de si mesmo. Durante 15 anos viveu no prédio em frente à padaria e confessa: "Para mim, o mais difícil era adormecer. Acordar sempre foi um sossego. Mesmo nos tempos e que havia muita prostituição, o barulho era muito pouco durante a noite." A segurança nos últimos 10 anos tem sido também um problema, indica: "Hoje já não há respeito pela Polícia. Não têm medo deles. À noite já vi de tudo. Até já fizeram graffities aqui à entrada da padaria." Por estes motivos, mostra-se favorável à vídeo-vigilância e opina que o uso desta tecnologia pode melhorar a segurança de todos. Hoje é o seu dia de aniversário mas como prenda, oferece-me uma merenda folhada, ali mesmo cozinhada por ela, na panificadora. As ruas do Bairro durante esta manhã fresca de Outono continuam a padecer de uma estranha normalidade, para quem possa estar mais habituado à copofonia noturna.


Tempos de Outrora

“Antigamente as manhãs tinham outra graça! Acordava com os jornaleiros, os vendedores de rua dos figos da capinha rota e as lavandeiras de Caneças que todos os dias nos limpavam a roupa. Ah, e os ardinas! Por vezes até via jornais a voarem das mãos deles para as varandas do terceiro andar.” 
Dona Maria da Pensão Atalaia.

Dona Maria Dominguez, proprietária da Pensão Atalaia costuma trabalhar durante a noite. Sai do serviço às 9H30 da manhã e a esta hora dirige-se à Leitaria de esquina na Rua da Atalaia para comer algo antes de dormir. Com o vagar da idade vejo-a entrar apoiada no balanço da bengala. Senta-se e depois de introduzida na conversa pelo dono da leitaria, partilha esperançada o seu saber acumulado em 70 anos de vida e de trabalho no Bairro Alto. “Antigamente as manhãs tinham outra graça! Acordava com os jornaleiros, os vendedores de rua dos figos da capinha rota e as lavandeiras de Caneças que todos os dias nos limpavam a roupa. Ah, e os ardinas! Por vezes até via jornais a voarem das mãos deles para as varandas do terceiro andar.” Relembra com saudades de outrora. “As manhãs de hoje são mais calmas” aponta, em oposição à vida do antigamente. Mãe, avó e bisavó, Dona Maria está preocupada com o futuro das próximas gerações. Da janela de sua casa ou da receção da sua pensão espreita pela janela para ver o que se passa nas ruas do Bairro Alto durante a noite. “As raparigas agora são as piores! Bebem mais do que os rapazes.” Fala do seu neto como exemplo, jovem de 20 anos que várias vezes depois de beber um copo na noite, prefere dormir em casa da avó, em vez de conduzir embriagado até à Margem Sul do Tejo, onde reside. Mas conta também que já ela mesma sofreu situações incómodas de assédio por parte de jovens embriagados nas noitadas, ao entrar e sair do seu trabalho, a Pensão. Também aponta a alimentação dos dias de hoje como um problema que pode afetar os jovens. “Já não comem a comida feita com a dedicação de uma avó ou de uma mãe, apenas querem hambúrgueres. Assim os jovens não crescem da mesma forma”. No Bairro Alto contudo pode encontrar uma série de bons locais para comer refeições que o irão satisfazer. Por exemplo na área da gastronomia tradicional recomenda-se o Pap'Açorda ou o Bota Alta, na comida oriental o Ghandi Palace ou o Calcutá, na world-fusion o Sul, ou a quem preferir os pratos japoneses indica-se o Novo Bonsai. Os habitantes locais sentem melhorias na qualidade do seu descanso desde que os bares passaram a fechar às 2H da manhã. Mais recentemente, às 3H nas noites de sábado e domingo. Apesar de tudo, adormecer continua difícil e esse é um ponto de acordo entre os locais com os quais conversámos. A conversa acabou hospitaleira, como não podia deixar de ser com a dona de uma Pensão, e a Dona Maria ofereceu-me um café, antes de seguir caminho.

"Bom Dia!" de Franck Grenier - Licença CC BY-ND 2.0


Ruas Limpas

“Os riscos nas paredes podem ser piores mas os graffities bem feitos até acho bem.” 
Sr. José, varredor, funcionário da higiene urbana.

Durante as noites ébrias deste bairro da cidade são dispensados milhares de copos de plástico. José é um dos trabalhadores que os varre durante o dia. Jovem de 30 anos que vem todos os dias da Damaia para o Bairro Alto. Aqui trabalha há um ano e desde que começou, já nota diferenças no volume de sujidade que encontra pela frente em todas as suas jornadas. “Desde há poucas semanas quando proibiram as lojas de conveniência, já não se veem garrafas de vidro no chão das ruas. Assim é melhor, agora são só copos de plástico.” Entra no emprego às 7H e varre as ruas durante a manhã com outros dois colegas, desde o topo do Bairro Alto, junto à Rua de São Pedro de Alcântara até ao Largo do Camões. Os graffities são habitualmente considerados pelas autoridades um problema de poluição visual, mas quando questionado sobre este tema, José mostra-se à vontade: “Os riscos nas paredes podem ser piores mas os graffities bem feitos até acho bem.” Aprova os murais que conhece na Damaia na Cova da Moura, junto a onde mora. “Essas pinturas trazem cor à área.” Deixa a sugestão que talvez pudessem fazer o mesmo no Bairro Alto: legalizar algumas paredes onde possam seja possível pintar esses murais. Nas paredes de várias ruas do Bairro Alto, nota-se o trabalho das brigadas anti-graffity que a Câmara Municipal de Lisboa, CML, tem financiado. Além de várias paredes sem pinturas e tags, esta última a assinatura de cada pessoas que pinta murais, é patente o trabalho que as brigadas têm levado a cabo. Até se veem limpas, as lajes e pedras que revestem as portas de rua dos antigos prédios do Bairro Alto. Os posters de evento, festivais e marcas que habitualmente invadem as fachadas dos prédios são cada vez menos, indica José. Agora existem placards próprios colocados pela CML que têm reduzido a poluição visual. Para saber mais sobre a sua profissão, José sugere-me falar com Rute, também varredora de rua. Ela é jovem e pratica o ofício há pouco tempo. Confessa que é agradável para ela trabalhar naquele bairro. Sobre a abastada quantidade de copos que todos os dias encontra pela frente, desabafa: “Quanto mais lixo houver, melhor para mim... mais horas extra recebo!”.


O Bairro

“Nessa altura, apesar da má fama, os clientes eram mais educados. Dantes a segurança era melhor.” 
Fernando, co-fundador do estabelecimento “Pérola do Oriente”.

Atualmente apenas duas mercearias continuam em funcionamento no bairro. Já a Dona Maria contava saudosista que vários estabelecimentos de comércio tradicional fecharam nas últimas décadas, dando lugar a casas de diversão noturna. Em funcionamento há 28 anos, a “Pérola do Oriente” na Rua da Rosa é um dos locais onde ainda podemos comprar produtos frescos durante o dia. Estabelecimento de dois irmãos, e mais conhecido devido a isso, por “Os Irmãos”, divide-se entre um café e uma mercearia. O café, já preenchido de afluência pelas oito da manhã, é separado por vidros interiores da mercearia, onde com mais calma se pode conversar com um dos empreendedores. Fernando conta que ali está naquela área da cidade há 28 anos e tem assistido a muitas mudanças. Quando questionado sobre a insegurança no Bairro Alto, dá-nos o exemplo dos anos 80 de quando aquelas ruas eram muito rotinadas por prostitutas, durante a noite. “Nessa altura, apesar da má fama, os clientes eram mais educados. Dantes a segurança era melhor.” Ali trabalha durante o dia: entra às 7H e sai às 20H e assim evita as horas notívagas de maior azáfama. A meio da manhã pelas 10H30 ficam para trás as ruas do Bairro Alto. Várias lojas de roupa, calçado e discos estão ainda por abrir, à tarde. Ao caminhar diante o jornal “A Bola” os repórteres discutem a atualidade desportiva e as suas tarefas vespertinas. Dos restaurantes, já de portas entreabertas, emanam inebriantes os aromas da gastronomia portuguesa, que serão depois servidos ao almoço.

Área histórica da capital portuguesa, o Bairro Alto é frequentado de noite e habitado de dia. Aqui se encontra a boémia noturna mas também uma vida própria diurna, recheada de histórias e vontade de as partilhar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Programa de Rádio - A Chegada

Programa sobre o dia da chegada a Lisboa. Foram os últimos momentos do périplo ao mundo, ao fim de 19 meses em viagem.

Para este programa convidei familiares e amigos,
para deixarem o seu testemunho.  Também poderás ouvir reportagens que passaram na TV, sobre este projeto. Convidei também o Rodrigo da loja Bivaque, onde comprei uma boa parte do equipamento.

Brevemente, serão publicados todos os programas de rádio, e está neste momento em preparação um livro sobre esta Volta ao Mundo. Em breve nas livrarias!

Bom programa, Boa viagem!
Beijinhos e abraços, 
João



segunda-feira, 9 de abril de 2012

Poema - Primeira Jornada

Dia de chuva em Lisboa
Dia de Carnaval no Mundo
E eu com vontade de viajar à toa
Aprender, conhecer-me a fundo

Quando saí de casa, em mim não acreditaram
Viram-me a sair e depressa exasperaram
Antes de fechar a porta, desejaram-me boa sorte
E esperaram também que passe depressa este corte

Rumei a Foros de Amora
O meu destino por agora
E quando lá chegado ergui o polegar
e logo comecei a perguntar

Até que um casal,
que voltava para Espanha
Me deu boleia,
sem me conhecer nenhuma façanha

Próxima paragem: Andaluzia
Com um passeio pelo meio em Sevilha
E não sei se foi do azar ou da sorte
Mas nesta cidade também me tornei mais forte

Quando um grupo de agentes me apanhou desprevenido
Encostou-me à parede e deixou-me em sentido
Revistaram-me de alto a baixo e pediram-me identificação
Fiz-me difícil e primeiro disse-lhes que não

No final de contas, eu estava legal
pois eu sou um viajante do vizinho Portugal
Ainda me perguntaram para onde é que eu ia
E no final um deles para a viagem me advertia

Chegado ao destino, constato o que se diz
“que em toda a Espanha, o melhor Carnaval é o de Cadiz”
Com os hoteis cheios e sem contactos ali,
Só me resta erguer o polegar e aguardar assim

Aguardo, pergunto e não desisto
Até que me pasmei com o que tinha visto
Uma jovem donzela, com um olhar de anjo
Maquilhada, espanhola, que me conquistou com o seu encanto

Diz-me que me deixa no seu conforto
mas apenas se fizermos um acordo
Vou ter que contar ao seu namorado
que venho da parte de um outro seu contacto

Aceitei,  até porque estava de passagem
e sem sítio onde dormir
E no final ela levou-me à paragem
para o meu caminho prosseguir

E se alguém um dia me perguntar,
o que fui fazer a Tarifa
Posso dizer que lá fui,
e lá me saiu uma rifa

Hospedado pelo Couchsurfing
num Hostel em construção
Enquanto trabalhava
Conheci o fundador de um site de jogos de mão

E lá tive conversas de inspiração
De que somos capazes do que achamos que não
E que é esse mesmo sonho que nos faz alcançar
E do meio do nada, fazer o mundo girar...