sábado, 6 de junho de 2015

Activistas - Parte VI

ACTIVISTAS - Cimeira da guerra.
História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.


Parte 6 de 6

Barra do Tribunal


Enquanto decorria a assembleia, um grupo de bombeiros sapadores expressamente convocados ao comando da polícia, com simbolismo, desencarcerava-nos dos metais e plásticos que nos agrilhoavam várias horas atrás, desde as nove da manhã. Da sede do COMETLIS fomos levados para o Tribunal do Monsanto, em Lisboa, ironicamente um dos principais lugares de paz na cidade. O relógio da carrinha da polícia, que conseguira vislumbrar marcava as quatro da tarde. Antes de sermos presentes os nove a julgamento, ficámos presos numa sala onde nunca pudemos contactar sequer com os nossos advogados. Figueira, um profissional das leis, inúmeras vezes associado às causas activistas, e que já participara em manifestações pela paz, foi o primeiro a chegar ao tribunal do Monsanto, assim que ouviu nas notícias da televisão portuguesa, que os activistas foram levados para lá.



Os seguranças do tribunal e a própria polícia impediam-no de contactar com os detidos. Impotente, aguardou a chegada de outros três advogados que conseguiu arrancar de casa, naquele sábado de Outono. Os quatro, pressionaram mais, alegando a violação de leis que asseguram os direitos básicos dos detidos. E um deles era claro, o direito a falar com um advogado. Que insensibilidade reinava às portas da instituição máxima da justiça neste país.



No vagar das horas, foram chegando cada vez mais activistas ao Monsanto. A assembleia geral no quartel deliberou fazer-se uma manifestação de apoio em frente à instituição onde estavam deitados os restantes de nós. O sol pôs-se mais cedo do que o habitual na tarde de confrontos. Pelo menos para mim. Monsanto à noite, iluminado pela parca luz do quarto crescente, apenas suficiente para iluminar um pouco daquele lugar tão estranho, improvável e esconso, onde supostamente se faria justiça. Eram já largas dezenas, do lado de lá da estrada em frente ao tribunal. Os autocarros ainda circulavam àquela hora da noite, iluminando as estradas escuras. O relógio marcava as dez horas da noite, exactamente doze depois de termos perpetrado a acção. E lá de fora só se ouvia um grito conjunto e de inequívoco apoio: ACTIVISTAS PRESOS. LIBERDADE JÁ!”



Primeiro saíram os quatro advogados, liderados pelo Figueira. Já era quase meia-noite, pelas 23H45. De seguida, e sempre a conta-gotas, aconteceu, a saída dos activistas, enfim em liberdade, ao fim de mais de doze horas de detenção ilegal. O juiz quis registar o nome, morada, dados pessoais, fiscais e bancários dos detidos, e imprimiu-lhes um cadastro, que carregarão o resto das suas vidas, por terem lutado pacificamente pela paz no mundo, num país que reconhece desde 1974, no Decreto-Lei nº 406/74 de 29 de Agosto, o livre exercício do direito de reunião em lugares públicos, independentemente de qualquer autorização estatal. Não recorremos a qualquer violência, não agredimos ninguém, nem tão pouco perturbámos a ordem pública naquele cruzamento, que já estava bloqueado à circulação pela organização da cimeira. Foi sem recurso a qualquer forma de violência, e apenas pela paz, que lutámos e por que nos prenderam.


Rockman of Zymurgy "Game Over" - CC BY-NC-ND 2.0 


Ainda hoje, cinco anos depois, espero o julgamento daqueles polícias que nem sequer uma chapa de identificação carregavam na sua farda à Robotcop. Gostaria de saber o nome deles, para pagarem a indemnização aos que ficaram com os braços partidos. Com certeza, o caso prescreveu e agora abolorece perdido no tempo dos arquivos da justiça lusitana.

A fita de cena forense foi algo que guardei. Essa tenho-a no meu quarto, e quantas vezes olho para a parede à noite antes de me deitar, e digo para comigo: “NATO GAME OVER”.



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"ACTIVISTAS - Cimeira da guerra."
História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Activistas - Parte V

ACTIVISTAS - Cimeira da guerra.
História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.


Parte 5 de 6

Porcos, incompetentes e maus


A chegada deles foi retumbante e violenta. As sirenes aproximavam-
-se de nós, dispostos no chão em círculo, agrilhoados e unidos entre nós por ferros metálicos dentro de tubos de plástico. Tínhamos a suspeita de que a polícia portuguesa não saberia lidar com esta situação,
por ser inédita no país.

O som projectado dos altifalantes no topo das carrinhas azuis da polícia, que deslizavam pela Avenida Gomes da Costa abaixo, ia sendo distorcido pelo efeito Doppler, à velocidade incessante e exagerada a que se deslocavam. Só pensava para comigo que era ridícula a postura da Polícia, sempre se desresponsabilizar para dar o exemplo aos restantes cidadãos. A atitude de eles próprios violarem tantas vezes, por exemplo, os limites de velocidade, mesmo quando em marcha de emergência. Chegaram com rapidez e não era o corpo policial comum, mas sim o corpo de intervenção. E que despreparados se mostraram para uma situação destas. Fomos nós os primeiros, que nos sacrificámos. Depois desta acção as supostas autoridades poderiam aprender algumas lições.

A primeira carrinha travou a fundo quando seguia ainda em velocidade, bem no centro do cruzamento. O Vítor e a Sara, os nossos “Anjos” foram a correr ter com eles para lhes explicar o intuito daquela acção. A Catarina estava a falar com os jornalistas ao mesmo tempo que lhes ia dando indicações para se moverem no cruzamento, de modo a conseguirem filmar a actuação, que se revelaria violenta da Polícia. Nós, sentados no chão, firmes uns nos outros e sempre de cabeça erguida, olhávamos de frente sempre que os polícias passavam à nossa frente. Chegou outra carrinha ao cruzamento, com um guinchar de travagem atabalhoada e descontrolada. Eram já cerca de trinta polícias equipados com capacetes. Às tantas, o Marcos grita para os Polícias acabados de chegar: Queres ver que ainda vão trazer os blindados que andam a gastar com o dinheiro dos nossos impostos.” O momento era de tensão mas esta frase de escárnio e ridicularização foi recebida com aplausos dos locais transeuntes que também olhavam para o aparato ali montado.

Cinco dos polícias aproximaram-se do círculo com o intuito claro de o desfazer, sem sequer terem pensado o que seria que nos estava a ligar. Agarraram a Maria, talvez por ser a mais frágil do grupo, e tentaram levá-la para fora do círculo. O meu braço foi de imediato arrastado para cima e para fora sentindo uma dor devido à tensão provocada nas correntes como antes nunca sentira. A Maria depressa gritou “Estamos ligados com ferros. Estamos ligados com ferros.”, o que os cinco polícias nem sequer ouviram. Como resultado imediato, todos nós seis no círculo fomos de repente arrastados pelo chão dois metros em direcção às carrinhas.

Espera lá que isso não é assim!” Veio a correr até nós, um dos polícias que estava a dialogar com a Sara e o Vítor. Boquiabertos, os restantes perceberam que isto era algo que os transcendia. Dois deles ainda continuaram a insistir que o corpo da Maria milagrosamente se soltasse do círculo, ao que ela, eu e o André voltámos a gritar “Estamos ligados com ferros!” Mas foi insuficiente, pois dessa vez a Maria esbracejou demasiado e revelando um semblante de desalento e dor. “Estou a sentir algo de errado no meu corpo. Acho que parti o braço esquerdo.”

Enquanto dez polícias conferenciavam como iriam resolver aquele imbróglio, nós continuávamos no chão, já lesionados mas firmes na nossa convicção de bloquear a cimeira da morte. A Catarina já relegava os media para segundo plano, para em vez disso nos trazer água, dando-nos de beber à boca, enquanto a exaustão, a tensão psicológica e o sol daquele dia, nos desidratavam. Já eram onze da manhã. Infelizmente, a resposta das forças foi demasiado rápida e dolorosa. Doze polícias vieram a marchar até nós, cada um deles agarrou-nos por um braço, na zona axilar, um de cada de lado. Dois para cada activista, e com algum sincronismo, gritaram os doze ao mesmo tempo que nós esperneávamos inconformados e resistentes. “Vá pessoal, três, dois, um. Levantem!”

Fomos levados até à carrinha, onde eles primeiro rebateram os assentos. Mesmo assim, com esta réstia de pensamento, durante o trajecto de cinquenta metros até às carrinhas, os nosso braços, mãos e ombros foram forçados a aguentar as deformações e tensões do tubo de plástico, dos ferros, do cavalgar mal sincronizado dos polícias. Nesse momento, continuámos a gritar: NO MORE WAR. NATO GAME OVER”. A comunicação social, filmou-nos em uníssono naquele momento de resistência. Na carrinha, estava com os braços tão esticados e os tubos tão para dentro que estava a sangrar. Sentia o sangue que escorria pelo tronco abaixo. Outros activistas estavam tão confinados ao espaço da parte traseira da carrinha e mal acomodados, que batiam com o seu corpo e a cara no vidro da carrinha. O momento por nós ali vivido era uma desumanidade.

Fomos levados para a esquadra do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, ou COMETLIS, como também se dizia, fomos encalacrados numa cela colectiva durante dez horas. A reflexão sucedânea a toda aquela manhã era inevitável. A polícia não obstante as suas vestes próprias para filmar a nova sequela do Robotcop, estava despreparada para cimeira internacional. Mesmo com os milhões gastos para comprar os blindados com dinheiros do erário público, que nem sequer antes nem durante o decorrer da cimeira. Chegaram depois da cimeira. Os polícias não souberam ouvir, não souberam agir, não conseguiram pensar, nem tão pouco proteger a integridade física das pessoas que ali se manifestavam pela paz no mundo.


Continua...



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"ACTIVISTAS - Cimeira da guerra."
História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Activistas - Parte IV

ACTIVISTAS - Cimeira da guerra.

História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.

Parte 3 de 6

Dia A”, de Activismo


Sábado, 25 de Setembro de 2010, era chegado o momento. O plano estava desenhado para o dia “A” de acção, e o objectivo era bloquear, impedir ou mesmo somente atrasar a concretização daquela cimeira maquiavélica. Para tal levávamos connosco material activista: correntes metálicas, algemas, tubos de plástico, um balde de tinta vermelha, muita energia interior e um espírito de equipa inamovível. Também importante um pequeno livrinho de bolso com várias instruções que devíamos seguir em caso de sermos detidos preventivamente e interrogados.

A manhã estava ainda a raiar, pelas oito e trinta do dia de Outono, e nós já estávamos a caminhar rumo ao cruzamento onde sabíamos de ante-mão por informadores na organização da cimeira, que iriam passar as viaturas oficiais dos principais protagonistas do circo de guerra montando na capital portuguesa durante dois dias.

Iolanda, Marcos, Sara, Maria, João, André, Catarina, Bart, e o Vítor. Cada um com as suas funções definidas. Falávamos pouco até chegar ao local. Mas estávamos focados em pleno no que estávamos prestes a fazer. Sabíamos também as consequências que eventualmente iríamos sofrer. Mas a defesa pela preservação da paz era mais importante. E claro, queríamos tão somente ser ouvidos. Nós, habitantes do planeta, indivíduos e seres humanos, estávamos e estamos terminantemente contra a guerra, a violência e o massacre, e aquela manhã era a forma de exprimirmos o conteúdo activista e humano que flamejava dentro de nós.

Ao chegar ao local, pelas nove e trinta, ao cruzamento entre a Avenida Gomes da Costa com a avenida que perpendicularmente levaria as viaturas até ao término da Avenida de Berlin, junto à Gare do Oriente. Aí, ainda no passeio, e ensolarados pelos raios da manhã de acção, tirámos as correntes, cadeados e algemas que levávamos na mochila. Durante as próximas duas horas íamos ficar agrilhoados uns aos outros, com o objectivo de bloquear a estrada e consequentemente atrasar a chegada dos chefes-de-estado ao evento que decorria então no Parque das Nações.

Quando nos sentássemos na estrada, íamos ficar com uma pessoa de cada lado à qual estenderíamos o braço, e à qual nos estávamos a acorrentar. Antes disso, a Iolanda tinha já lançado um balde com dez litros de tinta vermelha sobre o alcatrão do cruzamento, simbolizando o sangue das vítimas inocentes das apregoadas guerras pela paz, levadas a cabo pela NATO.

Já chega de guerras”, pensávamos todos desde que começámos a caminhada no quartel de madrugada, e de repente um de nós, o André começou a gritar. “NO MORE WAR!”. E a repetir o frase com uma cadência cada vez mais intensa. Em poucos segundos já estávamos tod@s nós, nove activistas a cantar em uníssono, aquele slogan pela paz.

Ao meu lado estava a Maria e do outro lado o Marcos. Já sentados no centro do cruzamento, sobre a tinta vermelha borrada na matiz escura, densa e opaca do macadame, formávamos um círculo de pessoas. As nossas pernas ficavam para fora, como precaução adicional para qualquer eventual carga policial do exterior do círculo. Poderíamos ter que espernear para a Polícia, caso nos atacasse à margem da lei e sem aviso prévio. As nossas costas estavam voltadas para o interior daquela pequena fortaleza de humanidade e reflexão sobre a paz no mundo. Quando a Maria me estendeu o braço dela com a sua mão no interior de um tubo de plástico PVC, inseri a minha mão primeiro e de seguida o meu braço naquele cilindro oco, para então procurar a sua mão e agarrá-la. Depois prendi-a à corrente que tinha já fixado a uma algema no meu braço. Assim estávamos fixos um ao outro no interior de um cilindro com volume suficiente para os nossos dois braços. Assim, sabíamos que quando a polícia ou segurança da NATO chegasse, eles não saberiam onde cortar o tubo, e que isso iria atrasar o nosso inimigo.

Roger Blackwell - CC-BY 2.0 - Unchanged

Com o Marcos do meu lado direito fiz o mesmo procedimento, até que passados cinco minutos, os seis no círculo estávamos ligados em série. No quartel activista, a An da Bélgica e outros activistas já tinham realizado inúmeros contactos com a imprensa para assegurar a chegada célere e atempada ao local, por parte de jornalistas de confiança, que não iriam deturpar os factos da nossa acção. A presença de jornalistas durante o acto significava também uma maior garantia de que qualquer interposição policial fosse feita sem recurso à violência.

Três de nós estavam fora do círculo, com a função de “Anjos”. Na noite anterior, na assembleia tínhamos deliberado em consenso que pelo menos dois activistas ficariam responsáveis por realizar a ponte de diálogo com a polícia, os jornalistas ou com qualquer transeunte a presenciar. A Catarina, a Sara e o Vítor ficaram com esse papel, e que depressa se revelou importante mas também ineficaz. Sentados no chão, e com o apoio dos “Anjos” gritávamos a uma só voz “NATO Game Over. No more War”. A repetição incessante deste chamamento trazia-nos sempre mais forças, ao mesmo tempo que atraía a atenção dos locais presentes naquele cruzamento de Lisboa, a uma hora matinal.


Cerca de dez minutos depois de termos dado inicio à acção, chegaram os primeiros jornalistas. E ainda bem que vieram antes da Polícia. Estes profissionais da comunicação foram contactados previamente pela equipa de relações públicas do Quartel Activista e eram merecedores da nossa confiança. Com alguma ironia, a rádio e a televisão estatais foram desprezadas, ainda que ali estivessem tão fisicamente perto, na mesma avenida e a escassas centenas de metros.

Continua...



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João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Activistas - Parte III

ACTIVISTAS - Cimeira da guerra.

História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.

Parte 3 de 6

Assembleia Geral




O convite para a reunião circulava apenas entre os e as em quem se confiava. A segurança e o sucesso da estratégia estava primeiro do que tudo, e era desse modo que a assegurávamos. As e os cerca de cem activistas ali presentes sentados em poltronas improvisadas, numa grande roda de cinquenta metros de perímetro, deliberaram em consenso, tal como nos conselhos de administração das grandes empresas e da própria NATO, o plano de acções para o dia seguinte. No final do concílio e com todo o círculo de pé, soltou-se um grito em uníssono: NATO GAME OVER.



Ali todos podiam propor as suas ideias, e todas elas seriam consideradas válidas. Se alguém se opusesse a algo que seja, esse simples facto era suficiente para colectivamente termos que repensar e refinar a proposta original, até que fosse então reunido o consenso. No final da assembleia que durara cerca de duas horas, sabíamos então de que forma é que iríamos pôr um ferro hercúleo na engrenagem da cimeira da NATO.


Martins Desrois, Rossio 2011 - CC BY-SA 2.0

Dado que a nossa localização era próxima do Parque das Nações, de manhã muito cedo, um grupo de nós iria caminhar até um cruzamento por onde o carro do secretário-geral da organização de guerra, assim como os de muitos outros chefes de estado de países do Atlântico Norte, iriam passar. Isso estava já delineado pela organização da cimeira e nós obtivemos essa informação. Vários voluntariaram-se para esta acção. Outros iriam ficar no Quartel d@s Activistas a fazer contactos com a imprensa portuguesa a internacional, e a preparar a normalidade reconfortante que teria que regressar depois da acção, ao final do dia. 



Continua...


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História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Activistas - Parte II

ACTIVISTAS - Cimeira da guerra.

História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
Alguns Direitos Reservados. CC by-nc-nd.

Parte 2 de 6
Quartel d@s Activistas


O mês era de Setembro e o ano de 2010. Os primeiros a chegar a Lisboa vinham da Bélgica, numa antiga carrinha branca da popular e famosa marca
Volkswagen. Eles eram extremamente afáveis e simpáticos. A An e o Bart, e a princípio estranhara logo por que vinham apenas duas pessoas. A explicação era simples e residia na carga que traziam consigo, onde se encontravam computadores, prospetos empilhados, posters ainda enrolados em tubos e ainda a cheirar a tinta da gráfica. Sempre pela paz e sempre contra a guerra, claro. Contudo, destes materiais todos, fixei-me em especial num enorme rolo de fita, do género dos separadores utilizados para demarcar as áreas de um crime pelas equipas forenses. Mas nesta fita estava inscrito em letras garrafais: NATO GAME OVER. As palavras repetiam-se vezes sem conta, naquele rolo interminável. O espírito das próximas horas vividas no seio dos e das activistas e durante toda a cimeira no Parque das Nações, iria ser exactamente esse. NATO, já chega de brincadeiras.

Fomos directos para Xabregas, onde o Quartel Activista estava a ser montado. E como prova do valor daquele campo, já por ali se avistavam carros com indivíduos sozinhos de chapéu e óculos escuros, sentados no seu interior, parados durante horas em frente ao campo dos activistas. Várias vezes eu regressava a casa, e um desses carros vinha atrás de mim. Desde o Braço de Prata em Marvila até Sete Rios, Benfica. Não me parecia muito sinceramente que fosse apenas uma coincidência. Ilegal, sim, lá isso era.

O armazém de sete metros de altura e largas dezenas de metros de comprimento, a poucos dias do início da cimeira, não sabia ainda o seu destino. O grande portão metálico na entrada do galpão separava o nosso mundo de valores e ideais, do calmo e recôndito bairro do Poço do Bispo, na capital portuguesa. Às largas dezenas de nós que lá chegaram naquele dia de Outono, juntaram-se outros mais nos dias seguintes. Elas e eles vinham de toda a Europa. Da Polónia, Holanda, França, Espanha, Itália e claro, de vários pontos de Portugal. Os Serviços Secretos já sabiam da sua chegada. Nós, portugueses já tínhamos também sido detectados.

As fronteiras do país foram encerradas temporariamente e todas pessoas tinham que apresentar um passaporte na fronteira, uma prática que estava à margem da lei e contra o Acordo Schengen. No mínimo, era revoltante que as polícias europeias pudessem agir assim perante os seus cidadãos. Vários grupos de activistas ficaram retidos na fronteira de Elvas-Badajoz, e mandados de volta para a sua proveniência. Como é que esta suposta organização NATO quer defender e apregoar a paz, com estas atitudes de fechamento de fronteiras, de bloqueio à circulação de pessoas, sempre à margem de acordos internacionais? Que prepotência, insensatez, e que falta de sensibilidade para governar, comandar ou planear o que quer que seja.

OccupyMN - CC BY

No interior do nosso quartel, já cheirava a jantar. A equipa holandesa, regressara de uma ronda pelo Beato e pelo Braço de Prata à procura de alimentos reciclados do lixo e de restaurantes. Esta refeição gratuita serviria para a centena de nós que ali pernoitava, nas vésperas daquela cimeira que ia decidir os caminhos da guerra no mundo, durante os próximos cinco anos.

Katerina, polaca de trinta e poucos anos de idade, devota à causa pacifista por uma boa parte da sua vida, circulava atarefada pelo corredor principal do espaço, para ir repor o Manual do Activista na mesa de informações, colocada logo por detrás da porta de entrada daquele antigo armazém de torrefação de café. Tal como ela, éramos todos voluntários. Junto à entrada no corredor, estava a denominada “Sala de Trauma”, onde se podia a qualquer momento, conversar com alguém licenciado em psicologia, sobre as experiências mais vincadas de um dia de confrontos com a polícia, ou de interrogatórios judiciais. Muitas vezes as batalhas não eram mais do que intimidatórias, frias e psicológicas. Talvez isso explicasse a tamanha afluência que vi àquele espaço de aconselhamento. Uma dezena de jovens, apenas no primeiro dia de manifestações.

Além do espaço que a equipa holandesa arrendara com o financiamento de uma associação não governamental de Amesterdão, explorámos as galerias infindáveis que se estendiam naquele complexo fabril que ocupava todo o quarteirão do Braço de Prata. Com uma boa dose de magia e suspense, sempre se abria a passagem de umas salas para as outras. A antiga fábrica de tomate enlatado conduzia a uma central eléctrica com um enorme painel de controlo fabril de dois grandes manípulos e várias luzes vermelhas de controlo. Os incontáveis tanques de processos industriais, erguidos a dezenas de metros de altura, estavam todos interligados por escadas de metal. Tudo isto era estanho e sinistro. Ao passar pelos átrios, percebemos que já lá estiveram outros antes de nós, pois levaram consigo o cobre.

O rapaz que fazia escalada da equipa francesa, passou os cabos pelas estruturas de ferro que aguentavam o tecto de zinco que nos cobria. Eu ligava a tomada e fazia-se luz. Agora os computadores do teatro de operações estavam ligados à internet. A imprensa internacional aguardava expectante os mails e telefonemas que lhes faríamos chegar ao longo dos próximos dias, para divulgarem as nossos conquistas. O prato vegetariano estava pronto, e logo seguia-se a Assembleia Geral de Activistas.

Continua...


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João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Activistas - Parte I

ACTIVISTAS - Cimeira da guerra.

História ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal

Direitos Reservados. Todos os textos, títulos e ideias originais aqui apresentados têm uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0). Os direitos aplicam-se às várias partes do texto, à forma do texto, ou seja, à cópia fac simile deste documento, assim como às ideias que lhe estão subjacentes, ou seja, a narrativa, a sequência de acontecimentos, personagens e outras ideias originais do texto.

NOTAS PRÉVIAS:  
i) O texto é escrito segundo as normas do Antigo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
ii) Os nomes de pessoas, as datas e horas apresentadas, assim como os lugares e as cenas descritas são ficcionais.
iii) Dedico este texto aos e às lutadoras de direitos, aos meus pais pelas oportunidades que me deram, ao meu irmão pela sua fraternidade, e à minha namorada pelo seu amor.

O mundo é um lugar perigoso para se viver; não devido às más pessoas que nele habitam, mas sim às pessoas que nada fazem quanto a isso.” - Albert Einstein


Parte 1 de 6

Cimeira da Guerra


A próxima cimeira realiza-se em Lisboa, dentro de dois anos!” - anunciou de um modo retumbante o secretário-geral, tendo logo de seguida batido com a sua mão direita no púlpito em que falava diante de jornalistas de todo o mundo. Concluindo, disse ele - “Sempre em defesa da paz, despeço-me de todos vós em nome da NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte”.

Que hipocrisia” pensámos todos e todas nós ao visualizar aquelas cenas na televisão, no espaço cultural do Intendente, em Lisboa. Nesse mesmo dia, sexta-feira 23 de Setembro de 2008, começámos a preparar-nos para o que seria o maior evento político dos últimos tempos em Portugal. Todos achávamos que era de todo impossível terminar com a guerra, a violência e os massacres, usando exactamente esses meios. Era necessário quebrar o ciclo de uma forma positiva, em vez de o alimentar com mais guerras e violência.

Passados dois anos, em finais de Agosto de 2010, já se preparava uma contra-cimeira. E claro que a íamos preparar. Não podíamos viver incólumes com a maior organização bélica do mundo, a partilhar o espaço de paz, diálogo intercultural e político que habitamos em Portugal. Esperavam-se neste contra-evento vários palestrantes, activistas, pacifistas, e quiçá mais importante, chegariam também vítimas inocentes da NATO bombardeadas em ataques citeriores. Por exemplo, na Sérvia, aqui tão perto no mesmo continente e onde há tão pouco tempo uma capital europeia foi completamente destruída, ainda corria a década de noventa. Ou no Afeganistão, no Ruanda, em Angola, entre muitos outros lugares. Infelizmente.

Librered CC-BY-NC-ND.
Já tínhamos visto e aprendido que a guerra pela paz acabava sempre por alvejar os mais frágeis, indefesos e inocentes. Ou seja, aqueles e aquelas que nada tinham que ver com os próprios conflitos políticos, religiosos ou económicos, nos quais as forças internacionais se digladiavam. E é sempre injustificável vitimá-los, ainda para mais tratando-se de uma organização que se apresenta ao Mundo como defensora da paz e da estabilidade. Apenas mentiras, laivos de pseudo-estratégias militares mal desenhadas e inconsequentes. Mas pior ainda, estratégias que tantas vezes foram ineficazes, pois nem sequer a paz deixavam quando as suas tropas partiam.


Continua...



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"ACTIVISTAS - Cimeira da guerra."
História Ficcional
João Carlos Aguiar - 30 de Junho de 2014 - Lisboa, Portugal
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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Transgénicos Fora


Caros e Caras,

Não posso deixar de intervir sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM), vulgarmente conhecidos como Transgénicos, pois este tema é-me caro e já sobre ele me debato há vários anos, um década talvez.

E quanto a ele afirmo que:

Há provas científicas, ou seja irrefutáveis, i.e. não são questões ideológicas, políticas, interpretativas nem sociais, mas sim de ciências exactas, de que:
1) As plantações não transgénicas são mais rentáveis do que as transgénicas, ou seja, produz-se mais comida com sementes não transgénicas do que o contrário;
2) A ingestão de OGM provocou em ratos, problemas de infertilidade, e problemas renais - "vide" artigos científicos do Seralini;
3) Que o glifosato, o herbicida exclusivo para se poder plantar sementes transgénicas, provoca Cancro - "vide" recente missiva da OMS - Organização Mundial da Saúde.




Sobre isso, acresce que, e a título debatível, por não haver factos exactos, mas opiniões formuladas, com base no bom-senso e/ou na lei que:
4) Pelo princípio da precaução, um dos princípios basilares da União Europeia, e de muitas Constituições, não se deve deixar trilhar o caminho dos transgénicos, pois ele pode hipotecar gerações inteiras, havendo um risco de irreversibilidade nos danos por ele causados na Saúde Pública Humana, Animal e Vegetal. Logo deve aguardar-se mais tempo, vinte ou trinta anos, para se comprovar se os OGM são, talvez, logo se verá, efetivamente seguros. Até lá, ficam fora do mercado;
5) Os OGM não resolvem o problema da fome no mundo. Ver ponto 1 e considerar que são um negócio e não uma Acção de Caridade como por vezes as Multinacionais Agroalimentares dedicadas aos OGM fazem crer;
6) A vida não é patenteável! As empresas de transgénicos fazem pequenas alterações em seres vivos, ou vão buscá-los a lugares remotos como a Amazónia, para depois os patentearem. A vida é registável como sendo de alguém? Se sim, a partir desse momento, sempre que quisermos plantar algo, por exemplo uma semente desse ser vivo, temos que pagar um imposto a essas empresas! E pior, se não o fizermos podemos ser processados em Milhões de Dólares. Há o problema também da polinização cruzada que é incrontrolável. Pesquisar sobre um agricultor americano que foi processado pela Monsanto por, sem ele saber estar a crescer Milho, cujas sementes foram transportados de um campo anexo ao seu, e ele não poder controlar a ação dos Agentes Erosivos.

É estranho, anti-natural, uma negociata autêntica, um vexame à natureza, aos povos, aos guardiões de sementes, e como tal deve ser proibido. Que é, FYI, o que já está a acontecer pela Europa, América Latina e Ásia fora.

Mais informações:
www.stopogm.net - Plataforma Transgénicos Fora!
Uma plataforma portuguesa que luta pelo nosso país livre de transgénicos


Se alguém quiser posso recomendar Biblio e Filmografia sobre este tema, para evitar a maior proliferação de questões erróneas...

Saudações ecológicas!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Madrid em 24 Horas

Crónica publicada em www.jornaldinamo.com/wp/madrid-em-24-horas/

Já passava das cinco da manhã quando entreabri os olhos e esbracejei do colchão para fora até alcançar o despertador digital e desligar o som. “Vamos! Já passa da hora.” Dentro de poucos minutos estávamos no carro e a caminho de Madrid. Íamos os dois celebrar o 14 de Fevereiro mas também visitar o meu irmão que agora está por lá a viver.

Banhado pela aurora matutina, o montado alentejano prolongava-se belo e familiar, desde a nossa margem sul do Tejo até para lá de Elvas. A estrada seguia sempre calma, naquele sábado de manhã. A fronteira já não existia e ainda me admirava como se não o soubesse já de antemão. Confesso que receava algum motivo prepotente para pararem o meu carro. Se a polícia em Portugal é desmedida e desproporcional, nunca se sabe como será a do país vizinho. São cada vez mais síncronas, e as diferenças entre os dois povos não são assim tantas. Deve destacar-se que as auto-estradas por lá não são pagas, e isso, numa viagem já faz a diferença.

Já passava das duas da tarde na hora local, quando transitávamos num dos bairros mais chiques de Madrid, ou como se diz por lá, um dos mais “pirros”. As ruas, as fachadas e as pessoas estavam bem arranjadas. Impressionou-me que os peões assumiam o protagonismo da estrada, dado os passeios serem largos, por haver apenas um sentido automóvel, e mais importante ainda, devido aos veículos só poderem circular a 30 quilómetros por hora, máximo. Zona de velocidade reduzida.

O meu irmão aguardava uma leva de instrumentos musicais que lhe prometera levar. Em complemento ao seu trabalho integral, dedicava-se à música, a sua paixão verdadeira e de longa data. À hora de almoço, era impossível não petiscarmos algo onde ele trabalhava. Tempo apenas para ir até ao nosso Hotel, ali ao lado sito no mesmo bairro, fazer o “check-in” e regressar. Depois de petiscarmos uma tarte de bacalhau acompanhada de uma “caña”, e rematar com um pastel de Nata, Lisboa estava definitivamente para trás e doravante aguardava-nos Madrid.

Ao caminhar até à estação de metro mais próxima, “Vergara” o vento frio e cortante já se fazia sentir no rosto. O “barbeiro” como se diz no norte e se lembrava a Sofia. A cidade situa-se num planalto, sensivelmente na latitude do Porto e está rodeada no horizonte de montanhas repicadas de neve. As ruas mesmo frias conquistavam-me grandes e organizadas que eram. Assim como o Metro, abrangente e funcional, não obstante as estações e as carruagens serem mais espartanas e pragmáticas do que as da nossa cidade natal.

A estação que mais nos deixa no centro chama-se “Sol”, local das famigeradas e revolucionárias acampadas de 2010 e 2011, réplica das do Rossio em Lisboa, refira-se também. Ali, mais do que noutro lugar da urbe, sentia-se o bulício citadino de uma cidade de seis milhões, também em processo de auto-análise política e social. Várias vozes se faziam reclamar na via pública. Por exemplo os movimentos depois assumidos como partidos “Podemos”, ou a sua contra-versão “Ciudadanos”, etc. Mas o Carnaval ainda ludibriava muito as atenções de causas políticas.

Desde as “Puertas del Sol” caminhámos ao todo por duas ou três horas. “Calle Mayor” abaixo, até à respetiva “Plaza Mayor”, enclaustrada por firmes fachadas vermelhas, o tom nacional, e que nos eram recordação de um imaginário construído de imagens televisivas e de vetustas memórias.

Como este fim-de-semana era também de Carnaval, julgámos nós que por isso, havia vários artistas locais que tentavam pregar sustos aos mais incautos. No centro da Plaza Mayor, malabaristas, estátuas humanas e carnavalescos mascarados cirandavam por entre nós, constituindo o centro das atenções daquela bela praça. Logo ali ao lado encontrámos o Mercado de San Miguel, arrebatado por dentro e ladeado por esguias, atraentes e ajeitadas ruas, relembrando algo de Alfama.

No início da nossa caminhada, ainda junto à Praça, deparámo-nos com a invulgar vitrina do “Museu del Jamón Ibérico”. Um amontoado de pernas fumadas de porco, expostas como se de um talho se tratasse. Mas claro que o paladar desta iguaria, tão singular que é pela região ibérica, merece o Museu. Apenas discutiria a sua forma.

Ao fim da avenida principal depara-se com um palácio gigante, possante, até desmedido e exagerado. Como se arranjou espaço para isto? Perguntava-me. Fomos passeando em vez de questionar. De frente para ele, está também a Igreja Catedral da cidade, ponto de onde se avista a extensão urbana sobre um dos ângulos de Madrid. Vadeando o Palácio Real, no qual os atuais reis rejeitaram viver, por ser um excesso de opulência e uma incoerência num país que atravessa também, embora menor, uma crise económica.

Os seus jardins conquistaram-nos por serem abertos ao público, singelos, harmoniosos e nos permitirem tirar uma boa fotografia, cartão postal da cidade. Um simpático casal de Madrilenses acercou-se para me perguntar se queria uma fotografia. Momento de diálogo ecuménico que acabou por ser uma troca de registos fotográficos no “iPhone” de cada um.





Museu Nacional - Centro de Arte - Reina Sofia
De novo no Metro, fizemo-nos valer de um bilhete de 10 viagens, possível de ser partilhado por vários passageiros. Seguimos até à estação “Atocha”, a mesma onde os bárbaros atentados de 11 de Março de 2004 sucederam. Aposto à gare, está o “Museu Reina Sofia”, ao qual por desempate demos primazia sobre o Museu do Prado. Por ser um centro de arte moderna, por ter várias obras de artistas famosos como Salvador Dali, Pablo Picasso, Joan Miró, entre outros mais. Para além disso, apresenta um misto arquitetural de novo e antigo, em duas zonas distintas por onde lá se pode visitar arte. E por termos apenas 24 horas!


No regresso, fomos repastar-nos com um lanche num café / “snack”, momento em que tivemos uma primeira altercação. Sempre dei o meu melhor para comunicar num castelhano o mais completo e percetível que podia, mas não sei se por se notar alguma distonia sonora, se por antipatia crónica, os modos com que nos atenderam nesse lanche e no pequeno-almoço seguinte, deixaram a desejar e colocaram-nos a refletir. Na mesa da janela, contemplava os urbanos locais a circularem nas suas ruas. Estava longe de casa, a cerca de 800 quilómetros, mas ao mesmo tempo eram-me todos algo familiares aqueles semblantes. Mas no fundo falavam outra língua, viam outras notícias, votavam noutros sistemas, e tinham várias origens diferentes. Aí sentia a Madrid cosmopolita, diversa, mesclada.

Logo à saída do Metro, atentara num grupo de jovens ativistas, que ultimavam cartazes de manifestação, pareceu-me de relance que seriam pela liberdade sexual, contra o tradicional dia de São Valentim. Pouco depois, enquanto comíamos uma parca tosta e um chá de “manzanilla” no tal café / “snack”, do outro lado da rua, já se reuniam mais manifestantes. E a polícia municipal já condicionava o trânsito, naquela que é uma das mais movimentadas praças da cidade. No dia seguinte, novamente esta praça estaria interdita devido a um marcha de protesto.

De retorno às carruagens do metro, ecoavam duas vozes, uma masculina que tonitruava estereofonicamente “Próxima Estación”. E uma feminina que logo de seguida anunciava mais singela o nome da estação: “Príncipe de Vergara”. Já não me surpreendia e até despoletava boas memórias, dos “skits” do Manu Chao no seu segundo álbum a “solo”, assim como do do metropolitano de Barcelona.

De regresso, tínhamos que agilizar o jantar, processo que demorado, paciente e indeciso, acabou, como sempre, por se resolver a ele mesmo. Acabámos no bairro de “Salamanca”, num restaurante não programado, depois de algumas tentativas goradas, a jantar carnes grelhadas, acompanhadas de pão branco espanhol e vinho da região demarcada “La Rioja”. A Sofia, o meu irmão e eu, na ampla cave do restaurante “Olvido” também ele “pirro”, não fossemos estar na área do estádio Santiago Barnabéu, do Real.

O melhor da noite ainda estaria para vir, pois era o motivo da nossa deslocação até aquele bairro. O meu irmão ia depois subir ao palco para tocar guitarra numa “jam session” de “blues”. Os dois “solos” de guitarra que nos presenteou foram complexos e dignos de registo. De regresso ao Hotel de táxi, a chuva de pingos frios fez-se sentir numa Madrid molhada em noite de romance.

No dia seguinte, as “calles” asseadas, o ceú limpo e sol impeliram-nos até à Praça “Colón”, onde está a homenagem ao Cristóvão Colombo, aí claro reclamado espanhol e não português de Cuba. De lá avistámos a Praça “Cibeles”, onde tantas vezes se gravam as peças dos enviados especiais da televisão. Com objetivo em mente de aí ingressar num autocarro turístico, aguardámos na paragem ali mais próxima. Os bilhetes não eram convidativos, pelo seu preço e pelos vários cortes no trajeto habitual devido às manifestações no centro. Mas aguardámos na paragem. Um numeroso grupo familiar espanhol apoderou-se do espaço na paragem, passando-nos à frente, e quando o autocarro chegou, subiram primeiro. Quando chegou a nossa vez de comprar os bilhetes a motorista pergunta-me: Están com esta familia?” Ao que retorqui com a verdade. Momento então que me dizem que já não há lugares. O embate foi desnecessário e injusto, pois fica a estupidez no ar derivada de se que fizéssemos parte do grupo, então já haveria lugar para mais dois. A matemática não pode enganar. E claro que não recomendo este serviço turístico da cidade. De todo. Por dois motivos: - Primeiro porque só existe praticamente um serviço que resulta de uma parceria entre duas das maiores empresas de transporte de pessoas em Espanha. Ou seja, não há concorrência ao contrário de Lisboa; - Depois porque o preço é exorbitante. Além do mais, muitos hotéis só sabem dar informações sobre este serviço. Poderia ser por ser bom, mas não. Antes parecia um suave cartel.

Achara que o áudio-guia que se ouve neste transporte valeria a pena, mas novamente o péssimo atendimento ao turista da cidade, impele-me a desaconselhar. Como alternativa, e como já eram quase as 14 horas locais, pegámos no carro e seguimos nós o trajeto demarcado no mapa do prospeto daquela mesma empresa. Numa lógica “faça você mesmo” que confesso, me devia ter logo lembrado.

No fim, à saída da cidade, procurámos com paciência, tempo e cuidado a saída certa da radial mais interna da cidade, a M30, para a auto-estrada A5-E90 que cruzando alguns parques de energia solar pelo caminho, nos levaria de novo à fronteira, demarcada pelo Rio Guadiana que corre incessante sobre a Ponte José Saramago.

O regresso às portagens, à condução desregrada, à crise social aguda de valores materiais e intangíveis, ao trabalho e à resmunguice. Um fim-de-semana de alinhamento com as viagens, com as minhas paixões, e o meu irmão emigrado dentro de uma união de estados agora sem fronteiras. No fim de contas sentia-me viajado por entre um ambiente fraterno. Retinia a ideia que um amigo meu me dissera semanas antes: “na península ibérica somos principalmente influenciados pela cultura moçárabe”. E acrescentaria eu, apartados por reinados, interesses comerciais e pela legítima auto-determinação, mas também unidos por um passado partilhado de coexistência tanto como de embates entre islâmicos e católicos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Qual é a diferença entre mim e um grego?

Crónica publicada no Jornal Dínamo 04 de Fevereiro de 2015
www.jornaldinamo.com/wp/qual-a-diferenca-entre-mim-e-um-grego


No ensino obrigatório, os gregos estudaram a República de Platão, os Tratados de Geometria de Euclides, os pensamentos de Sócrates, o original, e estudaram a organização democrática da sociedade assim como os pilares do pensamento e das sociedades modernas.

Em Portugal, no ensino obrigatório, eu estudei e com muita fruição, “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões, “Os Maias” de Eça de Queiroz e o “Viagens na Minha Terra” de Almeida Garret, entre outros mais.

Agora tirem-se as conclusões.
Somos diferentes? Somos. Sem dúvida.

Os Gregos têm muito mais cultura democrática, republicana e filosófica do que nós? Sim. Sem sombra para dúvidas.

Os Portugueses vêem as oportunidades passarem-lhes ao lado, porque não exercem com inteligência, racionalismo e convicção o seu direito de decidir os destinos da nação ao votar de quatro em quatro anos?
Sim, é verdade.

Foto de George Rex
Creative Commons























A massa maioritária do eleitorado português é masoquista e gosta de votar, sem qualquer racionalismo e sem questionar, sempre nos mesmos que ao longo das décadas não têm defendido com veemência e democracia os interesses do povo de Portugal?
Sim, a massa lusitana é masoquista e gosta de fazer os mesmos erros várias vezes. Muitos dos votos são mesmo escolhidos com base no clubismo, assim como um benfiquista é inquestionavelmente desse clube até morrer.

O eleitorado grego foi racional, e decidiu desta vez, por exclusão de partes. Tal como no concurso “Quem Quer Ser Milionário”. Ora vejamos como terá pensado um/uma grego/a nas vésperas das eleições:

A hipótese A “PASOK”, nem pensar, dessa tenho a certeza que não. E o resultado ficou à vista: 4% dos votos. Passou de uma maioria a 4% em menos de 5 anos.

A hipótese B “Nova Democracia” já lá esteve também, só piorou a situação social, mais pessoas emigraram do país, mais desemprego jovem, e pior do que isso, continuou a não defender os interesses da Grécia na UE, sempre adoptando uma política de servilismo burro, incondicional e que não questiona ou renegoceia nada.

A hipótese C “Syriza” é a que sobra. Até que tem gente credível. No programa deles, têm propostas razoáveis, dizem que nos vão defender. E nós vimos no Parlamento Europeu que eles nos defendem mesmo. Então vamos votar neles!

Então, minhas amigas e meus amigos portugueses e portuguesas,
do que é que estamos à espera? A resolução de ano novo para 2015 é começar já a preparar o voto para o próximo Setembro/Outubro. Só estamos à espera que senhor Aníbal comunique a data do sufrágio. E desta vez, vamos com racionalismo. Não vamos cometer o mesmo erro duas vezes!


Crónica publicada no Jornal Dínamo 04 de Fevereiro de 2015
www.jornaldinamo.com/wp/qual-a-diferenca-entre-mim-e-um-grego

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Viagem Pessoal

1)

Não interessa o que eles foram
Nem tão pouco o que és.
Portugal é saudade,
Emoção e rigidez.

À teimosia, ignorância
e prepotência
É-lhes dado o espaço para
conquistarem a sociedade.

Ao sentimento, amor
e à liberdade,
é-lhes reservado o papel
de ingratidão, para ripostarem.

Sociedade nossa,
dividida em duas,
e cada vez mais,
bipolarizada.

E o diálogo,
entendimentos,
os sorrisos,
o comprometimento?



2)

Quando nascemos
de nós, nada sabemos.
E quando crescemos
assim nos mantemos.

As noites, as manhãs
e os dias vão-nos moldando
ao nosso próprio corpo,
e assim aprendemos.

Semblante que ganhas
o tom das mesmas palavras
que proferes
e dos olhares que diriges.

Íris que adquires
as tonalidades
de todas as
quatro estações

A sociedade consegue
ser fria,
má juíza e
vingativa.



3)

E na verdade,
não se quer
estar cá para
assistir a isso.

As tempestades por vezes
vêm direito a nós
e pouco ou nada
podemos fazer.

Pouco mais resta
do que escrever.
O sentir, as emoções,
e a comoção.

Ser livre de pensar,
espalhar
e gritar ao mundo
que somos livres de ser livres.



4)

Mas nem tudo é mau.
O que está meio bem
Também está meio mau.

Os meus pais são belos,
exemplares, humanos e irrepreensíveis.
Como lhes gabo as capacidades
Como os admiro, repleto de amor.

Todos vimos de lá.
De uma família, um berço,
do amor criacional
que nos nutre de bem-estar e auto-estima.

Todos vimos de lá,
desse amor
incondicional
que nos mantém vivos.

Todos vimos de lá,
e no final de contas,
não somos mais do que poeira
oriunda das estrelas.